quinta-feira, 25 de março de 2021

A PRISÃO DO CANGACEIRO RIO PRETO DO BANDO DE ANTONIO SILVINO E SUA PASSAGEM EM MOGEIRO E INGÁ: depoimento de um bandoleiro

 

Vários são os relatos em jornais do século XIX E XX da presença e permanência de bandos de cangaceiros famosos, e, não tão conhecidos nas terras de Mogeiro e Ingá. Entre eles podemos citar: Antonio Silvino e seu bando, Zé de Totó e Zé Luiz entre tantos outros anônimos e não tão famosos.

Antonio Silvino e seu bando

A dinâmica do cangaço no período em que se instalou nas terras do nordeste, e, especificamente, nas terras do agreste paraibano, era exaltada na literatura de cordel e narrada por penas de poetas populares como João Martins de Athayde, de maneira tão formidável que comparados com os roteiros dos filmes de Hollywood, ganham em superioridade, realismo e originalidade.

As noticias sobre o cangaço eram  constantes nos jornais da época. Pra se ter uma ideia, haviam jornalistas especializados em pesquisar, acompanhar e escrever a saga do cangaço no sertão.

Leia abaixo, na integra, uma reportagem do jornal O DIARIO DE PERNAMBUCO, (Recife, quinta-feira, 29 de marco de 1906. Pag. 01), que narra o episodio da prisão do Cangaceiro Rio Preto.

RIO PRETO

SEU DEPOIMENTO

“Damos abaixo o depoimento do famigerado cangaceiro Rio Preto.

Algumas outras declarações fez elle perante o dr. chefe de policia.

Estas, porem, precisam, por emquanto ficar em segredo de justiça.

Eis o depoimento:

* Firmo José de Lima, 24 annos, natural  de S. Vicente, solteiro, não sabe ler, nem escrever.

Declarou o seguinte;

Ere trabalhador de Manoel Francisco, no logar Junco, do municipio de Umbuzeiro, ! na Parahyba, quando ha quatro annos, Antonio Silvino, em companhia de nove cangaceiros, assaltou a casa de seu patrão, roubando-o e espancando-o barbaramente

Terminando o assalto, Antonio Silvino obrigou-o a acompanhal-o, afim de fazer parte do grupo.

Desde esse dia, começaram as suas relações com o celebre bandido Silvino, relações que conservou até dois annos passados, quando teve necessidade de abandonar' o grupo, levado por uma discussão havida entre elle e Silvino, da qual não resultou funestas consequencias, devido à intervenção do seu companheiro Cocada

Motivou a discussão querer Silvino obrigal-o a espancar tres homens que passaram no Mogeiro de Cima, desobedocendo ordens que neste sentido tinham sido dadas.

Cocada, tomando parte da discussão, colocou-se de seu lado, dando-lhe razão e separando-se, em companhia de Relampago, do grupo de Silvino.

Algum tempo depois, ao novo grupo se reuniram Nevoeiro e Barra Nova, ficando o grupo do Silvino composto pelos cangaceiros Tempestade, Ventania, Balisa e Dois Arros.

Depois da separação, Silvino procurou novos companheiros, constituindo forte  grupo.

Esta separação não trouxe, porem, entre os dois grupos intriga séria, tanto que, quando Silvino tinha necessidade de dar om assalto perigoso, convidava o seu grupo, do qual era chefe Cocada, sendo sempre attendido.

Todas as vezes que se separavam combinavam encontros em logares determina dos.

Há mais de um anno, achando-se com Cocada no logar Gitó, ahi encontrou-se com Silvino.

Nessa occasião, o famigerado bandido convidou seu chefe para, reunidos os dois grupos, assaltarem o estabelecimento de Manoel Bello, em Macapá, afim de não so roubarem tudo quanto podessem, como tambem assassinal-o.

Recusou-se elle e igualmente Cocada a acompanharem Silvino, porque este tinha o firme proposito de assessinar Manoel Bello.

Em vista da recusa por elles apresentada, comprometteu-se Silvino não matar a Bello, acceitando então elles a proposta

Entraram em Macapá, Silvino, Cocada Relampago, Balisa e Tempestade, cantando modinhas.

Procuraram o cabo de policia ali destacado, dssarmaram-no e o obrigaram a ensinar onde ficava o estabelecimento do Manoel Bello.

Chegando a porta de Bello, bateram, declarando que era uma força do governo, vinda de Timbauba, sob o commando do sargento Lopes de Maceio, e que desejavam que o sr. Bello lhes fornecesse o promettido café.

Manoel Bello, acreditando realmente tratar-se de uma força legal, não hesitou em abrir a porta.

Todos elles precipitaram-se para o estabelecimento, donde roubaram grande quantidade de mercadorias, conduzindo-as em um cavallo, que para este fim tinha levado Silvino.

Após a pratica do roubo, retiraram-se para Piraná, onde novamente se separaram os grupos, tomando cada uma direcção opposta.

Antonio Silvino, ao sair, levou o cavallo carregado com as mercadorias, dando antes da partida uma gratificação, em dinheiro, a Cocada, gratificação que foi dividida entre os companheiros.

Depois de um tiroteto que soffreu com Cocada, tiveram necessidade de se separarem, o que fez.

Deixando Cocada, foi para o engenho, Barrocas, com recommendações do major Philemon Nestor e de José Rezende.

Em poder de Rezende deixou uma comblain, de que Nestor lhe havia feito presente.

Cocada, depois da sua saida, foi homisiar-se no engenho Paggi, em Nazareth.

Passado algum tempo, receiou ser preso no engenho, constando-lhe já ser conhecida a sua permanencia naquelle logar

Deixou o engenho indo para Aroeiras, da Parahyba, onde se encontrou com Silvino e Cocada.

Reunidos, seguiram juntos para Fagundes, onde mataram um empregado de José Alves, por desconfiarem ter este rapaz denunciado ás autoridades do Ioga o esconderijo de Papa Mel, que pela policia havia sido morto.

Ainda reunidos, dirigiram-se ao Surrão, onde Antonio Silvino tomou um rifle ao negociante Manoel de Mello, delle fazendo lhe presente.

Em seguida, dirigiram-se para Figueiras, onde, pelas 5 horas da manhan, do dia 15 de fevereiro de 1903, assaltaram a casa do subdelegado Francisco Antonio Sobral, matando-o em seguida

Este assassinato teve como causa desconfiar Silvino que um tiroteio soffrido tinha sido promovido pelo Sobral.

Pouco tempo depois da morte do Papa Mel, foi, a convite de Silvino e acompanhado de Cocada, á casa de Marcos dos Pinhões, a quem assassinaram, por ter constado que Pinhões os perseguia.

Após o assassinato, dirigiram-se todos para a casa de Antonio Poggy, em Guaribas, onde almoçaram.

Não tomou parte, nem Cocada, no assassinato de Severino de tal, facto este occorrido em Aroeiras

Motivou este assassinato desconfiança de que Sevorino denunciara Silvino á força que o atacara em Torres, pouco acima de Aroeiras, em casa de Manoel Perrera.

Depois do assassinato, fugiram todos e occultaram-se em casa de João de tal, vaqueiro do João Barbosa, no logar Tamandua.

Ha dois annos passados, se achava em companhia de Cocada e Antonio Sllvino na residencia do major No, logar Mogeiro, quando passou Manoel Paes, ex-sargento de policia e inimigo deles

Antonio Silvino chamou-o e, reconhecendo o disparou contra elle o rifle, matando-o instantaneamente.

Tendo o grupo informações de que a forca policial não se achava no Pilar da Parahyba, resolveram dar ali um assalto, o que levaram a effeito.

Ao chegarem á cidade, mandaram cha. mar o carcereiro da cadeia e ordenaramlhe a entrega das respectivas chaves.

De posse das chaves, soltaram todos os presos, desarmando dois soldados que ali encontraram, prendendo-os, em companhia do carcereiro.

Em seguida sairam pelas ruas, angariando dinheiro das pessoas dalli, entre ellas o sr. commendador Napoleão.

Pouco tempo demoraram, levando o armamento dos soldados

Cocada tinha sob a sua protecção uma menina de 12 annos de edade, a qual foi offendida por Francisco Paes.

Chegando esse facto ao conhecimento do seu companheiro, esse escrevera ao offensor, pedindo 500$00 para resgatar a falta que commettéra.

Francisco Paes, ao receber a carta, consultou ao vigario da freguezia. que o acon. selhou a enviar pelo menos 200$00 .

Elle, porém, não acceitou o conselho, respondendo que para Cocada tinha balas.

Em vista disso, Cocada resolveu ir á sua casa, encontrando-o em companhia de um filho.

Contra o rapaz, que fugiu, dispararam as armas, vendo-o cair, a pouca distancia.

Antes de assassinarem Francisco, obrigaram a dar 100$000.

Em dezembro de 1903, combinaram almocar em casa do velho Felismino em Mano elos, na Parahyba.

Na occasião, estava elle e Cocada e, ao entrarem na casa do velho, viram um offcial de policia, que depois souberam ser o capitão Caetano com alguns soldados.

Logo que deram com a presença da força fugiram precipitadamente.

Pouco adiante, encontraram Silvino, que declarou não ter ido porque recebêra aviso de que a força se achava à sua espera, em uma moita proxima á casa do velho Falismino.

Nesse momento, Silvino contou que ha annos tinha travado um forte tiroteio na usina Santa Filonilla, do qual resultou a morte de uma menina, facto que lamentara.

Sendo apresentada na chefatura u'a macaca, confesou Rio Preto conhecel-a, dizendo que pertencia á Balisa e não a Antonio Silvino, macaca, que fora deixada em Taquaretinga, quando ali houve um tiroteio Com o destacamento.

impossivel precisar as datas dos factos em que esteve envolvido, sendo natural não se lembrar de todos eles.

Alguns factos são attribuidos ao grupo de que fez parte, porém indevidamente.

Quando Cocada assaltou a casa de Francisco Paes, foi por elle acompanhado e por Nevoeiro e Relampago.

Relampago foi quem, á ordem de Cocada, atirou no filho de Francisco.

Em dezembro do anno passado, separouse de Cocada em Piraus, donde, em companhia de uma moça, com quem pretendia casar dirigiu-se para o norte em procura de trabalho, pois já se achava aborrecido da vida de cangaceiro.

Um mez e oito dias passou em Mamanguape, em companhia da moça, trabalhando em terras de u'a mulher conhecida ali I por Dona Anninha.

Todo tempo em que ali esteve, conservou-se incognito. retirando-se por desconfiar ser preso pela subdelegado, que desconfiava ter ele raptado a moça que o acompanhava.

Seguiu para o norte. Cheganda em Goyanninha no dia 10 do corrente.

Ahi procurou trabalho, sendo finalmente acolhido no engenho Jardim, onde foi preso no dia seguinte á sua chegada.

O nome verdadeiro de Cocada é Manoel Marinho, sendo sua idade 49 annos e natural da Guarila termo de Itabayanna.

Antonio Silvino conseguiu, por intermedio do coronel Belém, residente no Crato, do Ceará, assentar praça em tres cangaceiros de seu grupo, conhecidos pelos nomes de Dois Arros, Pau Revesso e Manoel Ventura.

Ha cinco annos passados, uma força do Estado do Parahyba. commandada pelo tenente Paulino Pinto, unida a outra força deste Estado, commandada pelo capitão Angelim encontrou, no logar Surrão, Silvino, Antonio Francisco, Formigão, actualmente separado do grupo, e muitos outros cangaceiros, em numero superior a 50, sob a chefia de José Gato.

Resultou do encontro renhido combate, do qual sairam muitos cangaceiros mortos e outros feridos.

Na ocasião do combate estava doente, o que motivou não tomar parte nelle.

Ao terminar o fogo, Antonio Silvino fugiu, indo a ele reunir-se”. (DIARIO DE PERNAMBUCO, Recife, quinta-feira, 29 de marco de 1906. Pag. 01)

 

 

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