domingo, 23 de julho de 2017

NEM DEUS , NEM A NATUREZA! CIENTISTA FAZ CHOVER NO INGÁ! SERÁ?

Já cantava O velho Lula:

“No meu cariri
Quando a chuva não vem
Não fica lá ninguém
Somente Deus ajuda
Se não vier do céu
Chuva que nos acuda
Macambira morre
Xiquexique seca
Jiriti se muda “
NUVENS  DE CHUVA PROVOCADAS POR FOGUEIRA DE IODATO DE PRATA E OUTROS MATERIAIS , EM 1953 NO INGÁ.. FOTO REVISTA CRUZEIRO


          Pelo menos isso, assim como Luiz Gonzaga, era o que todos nós acreditávamos, até que surge, em 1953, aqui n Ingá, um cientista de nome Janot Pachego, dizendo que poderia transformar o clima seco do Ingá, em vegetação verde e farta. Janot dizia que poderia FABRICAR CHUVAS!
Segue a matéria completa, publicada pela Revista O Cruzeiro, de 1953.
JANOT PACHECO FAZ CHOVER DE VERDADE?
          O que é e como se faz chuva artificial – Janot Pacheco disse que faria chover na Paraíba, e que se não houvessem nuvens, êle as fabricaria: e fabricou mesmo – quase morre num acidente de automóvel, mas as chuvas chegaram – Há pseudoccipitalistas que não acreditam em chuva artificial, uma coisa que nos Estados Unidos já é de domínio da ciência – e os caboclos vão perguntar aos padres se podem beber aquela água “que não foi feita por Deus”
          Em1951, o paraibano Juarez Barreto, regressando de um curso nos Estados Unidos, escreveu uma carata ao Presidente da República. Êle assistira experiências positivas de chuvas artificiais naquele pais e soube como assim tinham sido beneficiadas regiões áridas do Arizona, Novo México, Califórnia e Oregon. Diante do flagelo da seca que castiga o se Estado natal, o moço Juarez, cheio de boas intenções, não hesitou em escrever ao chefe da nação contando suscintamente o que havia visto e sugerindo a vinda da equipe Dr. Irving Krick, a maior autoridade mundial no assunto. Êste, aliás, prèviamente consultado, comprometera-se a a visitar o Nordeste, em troca apenas do pagamento de transporte e estadia, coisa que iria no máximo, 200 mil cruzeiros (Dep. Nac. de Obras contra as Sêcas, já gastou mais de 2 biliões de cruzeiros e a tragédia continua a mesma de séculos passados). O apelo de Juarez foi respondido pouco tempo depois, pelo oficio 321, de 3.5.51, da Presidência da República. O jovem paraibano ficou sabendo que fora ouvido o Ministério da Agricultura. E segundo o processo 8852, os sábios daquele ministério haviam sentenciado: “Não deve ter nenhum amparo oficial qualquer forma de plano em que se objetive em resolver o problema das secas do Nordeste por meios artificiais de produção de chuvas. ” E terminaram sugerindo a criação de um novo órgão oficial para estudar a “Física das Nuvens”, além da aplicação de recursos do Serviço Meteorológico afim de estudar métodos de previsão das secas do Nordeste. ” Além de repudiar a existência de um processo cientifico para provocar chuvas, além de impedir uma experiência barata, os “cientistas” oficiais aproveitaram a chance para dar a ideia da formação de um novo órgão burocrático...Note-se que, na mesma época, o Governador José Américo também se interessa, por intermédio do senador Rui Carneiro, pela vinda das técnicas Americanas. Tudo ficou por isso mesmo. E a Sêca também, como sabemos.

ONDE APARECE JANOT PACHECO?
          Se nossos cientistas-funcionários, julgaram desse modo o que já se fez nos Estados Unidos, onde o Governo gasta 3 milhões de dólares por ano para o estudo e a provocação de chuvas artificiais, é fácil imaginar o que aconteceu quando um brasileiro se dispôs, por iniciativa própria, a fazer chover. A odisseia de Janot Pacheco começou em maior de 51, no Ceará, continuou no Rio Grande do Norte (seus trabalhos foram testemunhados por Café Filho, 4 Governadores, senadores e deputados). Depois andou derrubando nuvens em S. Catarina, Rio Grande do Sul, Minas, etc. E finalmente, em março último, ofereceu-se para tentar aliviar a sêca (da qual tanto se fala quando os sertanejos estão morrendo e que é tão rapidamente esquecida, quando as coisas melhoram. Por quinze dias, o oferecimento de Janot, apesar dele só pleitear o pagamento das despesas, sem nenhum lucro pessoal, andou no joguinho burocrático pelos canais competentes. E assim ficaria se o Ministro Souza Lima, da aviação, não fizesse valer sua autoridade e autorizar a tentativa. Como diria mais tarde o Governador José Américo: “ A aprovação de chuvas já é do domínio da ciência. E mesmo que se duvidasse das experiências de Janot, mesmo assim elas deveriam ser tentadas, afim de que se comprovasse a sua eficácia. ”
          Ainda no Rio de Janeiro, Janot Pacheco afirmara: _. Eu farei chover, e senão houver nuvens para derrubar, eu as fabricarei.
         Vejamos o que aconteceu.
          Dia 16 de março, chegando às vésperas, Janot fez a primeira fogueira de iodeto, etc. na localidade de Cajá. Houve grandes formações de nuvens por uma grande região em torno de Campina Grande. Êle pretendia, depois de formar, ou incrementar, conforme o caso, as nuvens, ir abatê-las nos locais indicados com gelo sêco. Êste ficara de ser remetido pelo Ministério três vezes por semana (às segundas, quartas e sextas). O dia 16 foi a segunda-feira, houve nuvens. Mas o gelo prometido não chegou.


FOTOS: REVISTA CRUZEIRO

          No dia 17: Às seis horas da manhã, Janot partiu de Campina Grande para Itabaiana, enquanto o seu filho, engenheiro Gabriel Janot Pacheco, se dirigiu para Cajá. Iam fazer duas fogueiras, em locais diferentes, para “cercar” a região que pretendiam molhar, aproveitando da melhor maneira a direção do vento. A caminhoneta onde ia Janot, porém, ao chegar na localidade de Ingá, caiu de uma ponte sem parapeito de uma altura de mais ou menos cinco metros. Depois de dar duas cambalhotas, o carro foi mergulhado numa pôca cavada no leito do rio sêco. O motorista morreu horas depois. Janot Pacheco foi recolhido ao hospital de Campina Grande, com vários ferimento e contusões, assim como o agrônomo Carlos Faria, Chefe do Serviço Experimental Agrícola da Paraíba ( que acompanhava as experiências como observador), o repórter Clodomir Morais, do “Diario de Pernambuco”, o fotografo Pero Vaz, e o repórter Juraci Barros Gomes. Enquanto isso, o engenheiro Gabriel, por ordem do pai, prosseguiu com o trabalho. Durante o dia, um mar de nuvens se espalhou nos céus da Paraiba e, levado pelos ventos, foi cair esparsamente no Rio Grande do Norte. Não houve gêlo sêco.

Dr. JANOT, HOSPITALIZADO EM CAMPINA GRANDE, DEPOIS DE VITIMADO POR UM ACIDENTE DA SUA CAMINHONETE NA PONTE DE MADEIRA DO INGÁ. DO LADO DIREITO,SEU FILHO, O ENGENHEIRO GABRIEL,EM UM AVIÃO DA F.A.B.. FOTO DA REVISTA CRUZEIRO.

          Dia 18: Finalmente chegou a primeira remessa de gêlo . As nuvens já haviam seguido para longe, tocadas pelos ventos. Assim mesmo, o engenheiro Gabriel fez um voô sem resultado.
          Até o dia 23, o gêlo sêco continuou sem ser enviado. No dia 22, o Tenente Campos Junior, um dos Chefes do posto Meteorológico da Aeronáutica de Natal, garantira que não havia possibilidades de chuvas nos dias próximos. Mas o dia 23 amanheceu chuvoso. O engenheiro Gabriel, seguindo instruções do Dr. Janot, fez um voô e pulverizou Iodeto de prata sobre as nuvens. Houve chuvas em vários municípios. As opiniões do público se dividiram. Uns achavam que eram chuvas naturais, apesar de na região não chover há muitos meses (em alguns lugares há três anos). O Dr. Janot argumentava com a ação prolongada do iodeto de prata e o cloreto de sódio na atmosfera, ao redor dos ventos e redemoinhos atmosféricos, e afirmava que as chuvas eram resultado dos seus trabalhos.
          Dia 24: Muitas nuvens, muita chuva, em localidades diferentes. E nada do gêlo sêco que o Departamento Nacional de Obras Contra as Sêcas  ficou de remeter de dois em dois dias.
          Dia 25: Pela madrugada, Gabriel Pacheco, acompanhado por Juarez Barreto ( o rapaz que telegrafara ao Presidente, e que foi um grande auxiliar nessas experiências do Dr. Janot) fez uma fogueira perto de Serrinha. O céu estava limpo, no começo.Em pouco, nuvens se formaram no zênite, espalharam-se, engrossaram e começaram a cair no próprio local da experiência. Gabriel foi a Recife, embarcou numa B-17, cedida pela F.A.B. e pulverizou iodeto de prata sobre Campina Grande. Depois de 15 minutos as nuvens escureceram e choveu nos arredores da cidade, isso se deu as 12:30 horas. O gêlo sêco chegou pela segunda vez a tarde.
          Dia 26: muita chuva em Campina Grande e muitos municípios.
          Dia 27: Continuou a chover. Conscidência? No Rio Grande do Norte e em outros estados, a sêca continua.
FOTO: REVISTA CRUZEIRO

          Dia 28: a chuma cessou. Nova fogueira foi preparada , desta feita perto do Ingá. Às dez horas da noite, o céu estava completamente limpo. Os gases de iodeto de prata,cloreto de sódio, etc. começaram a subir para o alto.Dequando em quando, a acetona provocava uma imensa labareda. Exatamente sobre o local da fogueira, começou a se formar uma nuvem, a grande altura. Essa nuvem foi se multiplivando. Duas hora depois, o céu estava coberto.
          Dia 29: amanheceu chovendo. Toda a região estava tomado de nuvens pesadas.
          No dia 30: chegou a terceira remessa de gêlo sêco, com o qual foi feita mais uma demonstração.
          Esse é o resumo objetivo e imparcial, do que aconteceu na Paraíba, durante os dias em que o Dr. Janot Pacheco andou por lá.A experiência realizada em Ingá, foi também assistida pelo prefeito da cidade.

O Cruzeiro, 18 de abril de 1953.

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