segunda-feira, 3 de abril de 2017

DO NASCIMENTO A PAIXÃO! DE ROMEU A JULIETA... DO BANDIDO AO COWBOY! A TRAJETÓRIA DO CINEMA NO INGÁ

Contagiada pelo crescente desenvolvimento econômico ocasionado pela prosperidade que chegava ao município graças a presença do algodão, a cidade do Ingá vive seus anos dourados durante quase toda a primeira metade do século XX.
CARTAZ DA DECADA DE 1970-1080 DO CINE ALVORADA DO INGÁ-PB

A elite local era agraciada com a luz a motor (enquanto a maioria da população ainda usava luz a candeeiro). Os fazendeiros construíam suas residências em estilo arte décor e neoclássico, enquanto os camponeses viviam debaixo de construções de taipa, cobertas com junco. 
As moças ricas da sociedade se vestiam com tafetá, tecidos de luxesse... enquanto as miseráveis donzelas trajavam vestes puídas de chita!


A escola Reunida, primeira instituição de ensino formal do município, poderia ter se chamado assim, por de fato “reunir” apenas os filhos de ricos e apadrinhados.
Praças, clubes, times de futebol, bandas musicais modernização dos transportes, instalação de indústrias... tudo isso dava ao Ingá da primeira metade do século XX, ares de modernidade.
E foi em meio a esse turbilhão de mudanças e acontecimentos que chega a Vila, a máquina de sonhos...
Em 1927 é inaugurado o primeiro cinema do Ingá – O Cine São José. De propriedade do Senhor José Rodrigues.  De acordo com depoimento de moradores locais, este cinema funcionou no antigo mercado público (das décadas de 1940 a 1950), onde hoje se localiza a prefeitura municipal do Ingá. Geralmente as sessões de filmes aconteciam nos finais de semana, sempre noturno da noite, pois durante o dia, o mercado era ocupado por feirantes, transeuntes e toda espécie de mercadorias.
Nas seções de exibição de filmes, que geralmente ocorria aos finais de semana, a sociedade da Villa do Ingá se divertia ao ver a imagem em movimenta tela.
Os filmes mostravam enredos e tramas de uma terra distante, onde a violência e o poder da arma ditavam regras, aspecto esse não muito diferente do que a população do Ingá vivenciou nas primeiras décadas do século XX.
Mas não só de violência vivia o cinema no Ingá! A telona também mostrava enredos religiosos e amores impossíveis como o de Romeu e Julieta.



CARTAZES E FOTOGRAFIAS DE DIVULGAÇÃO DOS FILMES SOBRE A PAIXÃO DE CRISTO EXIBIDOS NO CINE ALVORADA NAS DÉCADAS DE 1960-1980

            O cinema no Ingá ainda resistiu até os primeiros anos da década de 1980. Foi graças ao desinteresse da população e o advento de mídias como a televisão e o vídeo cassete que o CINE no Ingá deu seus últimos suspiros de existência.
            No local onde funcionou o último cine do Ingá, após o seu fechamento, o prédio foi utilizado como igreja e depois como filial da Loja da Icasa.
Foi graças a presença do CINESESI cultural em nosso município nos últimos dias, que nós do ingaense tivemos a preocupação em mostrar, a história do cinema em nossa cidade.




Partindo desse ponto, juntamos o que sabíamos e procuramos entender aquilo que ainda não estava claro. Para isso buscamos conversar com pessoas que vivenciaram o período de “glamour” do cinema no Ingá.
Nesse sentido, buscamos entrevistar uma pessoa que tinha uma relação muito particular com o cinema na cidade. Trata-se de MARIA DE LOURDES RIBEIRO RODRIGUES, NASCI 28.12 DE 1944, viúva do senhor Zenildo Rodrigues, último proprietário do Cine Alvorada do Ingá
Segue a entrevista:
 
MARIA DE LOURDES RIBEIRO RODRIGUES
O INGAENSE: Dona Lourdinha, boa tarde! Nos desculpe o incomodo... aproveitando o ensejo da presença do CINE SESI em nossa cidade, nós do Blog o Ingaense, resolvemos levar mais a fundo a história do cinema no Ingá, e, como era de se esperar... por sua história, por ter sido proprietária, juntamente com o seu falecido marido, o senhor Zenildo Rodrigues, de um dos mais CINES da história do agreste – O CINE ALVORADA – gostaríamos que a senhora nos falasse um pouco de suas vivencias... de sua relação com o cinema aqui no Ingá.

MARIA DE LOURDES RIBEIRO RODRIGUES: Na minha infância, o cinema funcionava dentro do mercado público. Havia a feira no período da manhã e à noite o dono do cinema utilizava o mercado público para exibir os seus filmes.
Como era cobrado ingresso para ser assistir a películas, o dono do cinema, cortinava as portas do mercado público com lonas, impedindo assim que as pessoas que não comprassem entradas, fossem impedidas de verem o filme exibido.
Todas a portas laterais do mercado público eram isoladas por lonas. O público entreva pela porta da frente do mercado.
 O INAGENSE: Quem era o proprietário do cinema?
MARIA DE LOURDES RIBEIRO RODRIGUES: Eu era muito pequena, não me lembro do nome do dono do cinema. Acho que era um tal de Reinaldo Ribeiro... não me lembro.
Me recordo que durante toda a minha infância, o Cinema funcionou no mercado público do Ingá.
O INGAENSE: Como o Cinema funcionava em um espaço improvisado, ou seja, no mercado público, nós acreditamos que não haviam acentos, ou melhor, cadeiras. Nesse sentido, como as pessoas faziam para assistir os filmes exibidos mais confortavelmente?
MARIA DE LOURDES RIBEIRO RODRIGUES: Todo mundo levava seu acento. Havia algumas famílias que adoravam o cinema!
Haviam crianças... muitos meninos que ganhavam dinheiro transportando os acentos, as cadeiras das residências das famílias para o mercado público, para que elas pudessem assistir mais confortavelmente as histórias exibidas na telona.
Eu me recordo que várias vezes eu assistir, quando criança, os filmes no colo do meu pai. O INGAENSE: quanto tempo durava uma sessão de filme no mercado público do Ingá?
MARIA DE LOURDES RIBEIRO RODRIGUES: Como a luz na época era a motor, ou seja, era ligada das 18 às 22 horas.  As exibições dos filmes começavam de 19 horas e não iam mais que 20 horas, 20 horas e meia.
Este cinema do mercado teve início na década de 1950 até meadas da década 1960. O CINE do mercado não tinha nome, mas exibia muitos filmes bons. Eu me lembro que assistir Romeu e Julieta ainda neste cinema
O INGAENSE: Dona Lourdinha, de quem foi a ideia de fundar o CINE ALVORADA aqui no Ingá?
MARIA DE LOURDES RIBEIRO RODRIGUES: O Primeiro Cinema pertenceu a seu Antônio Lima, que era um Agente Fiscal aqui do Ingá. Zenildo comprou o Cinema a ele (a maquinaria). A casa onde funcionava o cinema, pertencia a Igreja Católica. Era onde funcionava o Centro São Vicente de Paula.
            Daí, Zenildo comprou a Casa e montou o cinema nela. Com o dinheiro da venda desse imóvel, a Igreja adquiriu outro, que é aquele onde hoje funciona o Centro São Vicente de Paula. Mas antes... pronto! No tempo de Seu Antônio Lima, não foi dele e nem foi de Zenildo. Era da Igreja Católica. Zenildo pagava aluguel.
E, onde é a Farmácia de João Bolinha hoje, antes era uma sorveteria, que pertencia a seu Tibúrcio Valeriano (eu acho). Foi Seu Tibúrcio Valeriano (prefeito do Ingá - 1967-1973) que organizou isso, Cinema e tudo. Eu não sei se ele era prefeito na época.
Depois das exibições das sessões de filmes, as pessoas se direcionavam para a sorveteria para se deliciar.
Nesse período, a vida social do Ingá era muito agitada, e o cinema contribuiu muito para que isso acontecesse. As pessoas se arrumavam para irem ao cinema. As mulheres se maquiavam, colocavam sapatos de salto alto. Usavam bolsas, joias e bijuterias.
O INGAENSE: quando o seu falecido marido, o senhor zenildo se tornou proprietário do cine alvorada, e porque esse nome?

MARIA DE LOURDES RIBEIRO RODRIGUES: Acho que Zenildo comprou o cinema a seu Antônio Ribeiro nos últimos anos da década de 1960. Nesse tempo seu Antônio Ribeiro exibia muitos filmes bons, e, para Zenildo foi um ótimo negócio investir nessa área.
            O nome CINE ALVORADA veio do amor e admiração que Zenildo possuía pela arquitetura moderna de Brasília (do palácio da Alvorada). Eu lembro até que ele pintou dentro do Cinema um desenho do Palácio da Alvorada.
            Zenildo cuidava muito bem do Cinema. Investiu muito dinheiro nele. Comprou poltronas confortáveis ( marca Simo) que veio direto da fábrica para o Cine Alvorada do Ingá.
            As poltronas eram parafusadas no Chão... quando havia enchentes no Ingá, ele era obrigado a desparafusar as cadeiras para que a água não as estragasse.
 Depois que a bilheteria do cinema afracou, devido a popularização da Televisão nas décadas de 1970-1980, ele precisou vender as poltronas, e isso o deixou muito triste. As pessoas perderam o interesse pela magia da telona.



Um comentário:

  1. Que legal! Eu não sabia dessa maravilhosa história da nossa terrinha.

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