domingo, 9 de abril de 2017

DEFLORANDO A VIOLADA! A PRÁTICA DA VIOLÊNCIA CONTRA AS PROSTITUTAS NA VILA DO INGÁ

Nós do blog O Ingaense iremos abordar nessa matéria, um assunto que durante muito tempo foi silenciado pela história e pela sociedade ingaense. Talvez por vergonha, preconceito ou pudor, mulheres tiveram os seus nomes riscados e seus rostos apagados da história da história do lugar, porque era feio lembrar delas, falar sobre elas!
Proferir seus nomes era pecado!!!


Mulheres como Maria Santa, Maria Borba e tantas outras que foram silenciadas e repetidamente negadas da história...  
Aqui, nesse espaço, são lembradas, não apenas como prostitutas ou meretrizes... São lembradas como mulheres, como pessoas que foram vitimadas pela violência e o preconceito de seu tempo e que encontraram nas casas de danças ou casas de recurso o único meio de sobreviver a intolerância, ao preconceito, a mesquinharia e o desprezo da família e da sociedade.
Lembremos aqui delas não apenas como Damas da noite, mas como meninas que tiveram a sua hora arrancada, na maioria das vezes a força, e outras tantas entregues por juras de amor e promessas de casamentos.

Corrompidas. Dessoradas. Defloradas. Abandonadas pela família a própria sorte e a maldade do mundo, a única forma de sobreviver e apagar a vergonha do corpo e da alma era se tornarem prostitutas, quando pobres, ou enclausurassem em conventos quando ricas. Longe do mundo...Fora do mundo... E a parte dele...
Aqui no Ingá, lembremos de Maria Flor! Prostituta obrigada a ingerir soda caustica por seus clientes e que sua família aceitou com comodidade, a causa de sua morte, o fato dela ter chupado abacaxi no período menstrual.
Ressuscitemos Maria Borba! Prostituta Dona de uma casa de dança, que hoje fica localizada em frente ao campo do América, e que foi assassinada impunimente por seu amante (um policial) porque ela estava dançando com um cliente.
Lembremos de Maria Rosa, mulher da vida que foi assassinada quando fazia atendimento a um soldado na delegacia do Ingá... Motivo da morte?  Ele disse que ela estava chamando palavrões e por isso ele a alvejou com três tiros...
Havia um ditado popular entre as prostitutas sobre a indisponibilidade que elas nutriam em manter relacionamentos amorosos com soldados de polícia. Entre as cidades de Itabaiana e Ingá era comum as putas recitarem:
“ Mulher que ama soldado
Ama cachorro também!
Cachorro ainda tem rabo
Soldado nem rabo tem!”
Esse preconceito contra os soldados, por parte das Damas da noite, era justificado, entre elas devido à falta de respeito e violência desmedida com a qual os militares as tratavam!
Lembremos aqui, que foi graças as prostitutas que moças de família, levaram consigo intactas a sua pureza para o altar.
Lembremos também que ninguém nasce prostituta, e se há prostituição é graças a uma sociedade que diz que “ age de acordo com a moral e os bons costumes” quando na verdade, patrocina a prostituição e contraditoriamente age como seu principal opositor.

            Nós do Blog O Ingaense, buscamos mostrar aqui a imagem da prostituta como sujeito participe e vítima da sua própria história. Seja por representar uma ameaça à ordem estabelecida pela sociedade burguesa do século XIX, seja por se tornar, ou melhor. Ser colocada como alvo da violência e do preconceito estabelecido por uma sociedade onde a conduta moral de uma mulher ainda poderia ser medida pela quantidade de homens que ela dormia.
            Se dormir com vários homens no passado era condição indicativa que levava a mulher a condição de Quenga, então o que seria ser Quenga nos dias atuais?
            Lembremos que julgar o passado  a partir do presente, é cometer anacronismo!

Obs:  Este texto foi escrito a partir de uma pesquisa de campo, a partir de entrevistas orais e documentos escritos. O que o Blog o Ingaense mostra é apenas uma pequena parte da pesquisa.


           


2 comentários:

  1. De forma poética vc nos aproxima da história muito bom esse texto. A pesquisa a campo com processos crimes realmente é fascinante
    Parabéns

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