terça-feira, 21 de março de 2017

O DOSSIÊ DA PASTA ROSA - Capitulo III: “Na escola eu não falava para que as pessoas não percebessem que eu era gay!”


Na escola aprendemos lições que levamos para vida toda. É nela que passamos uma boa parte de nossa infância, por isso ela assume um caráter de segundo lar. É nela que conhecemos nossos primeiros amigos e passamos a vê-la não apenas como lugar de obrigações, mas principalmente como espaço de sociabilidade e lazer. Desde modo, a criança vai à escola não só para aprender os conteúdos que disciplinas como historia e matemática tem a lhe ensinar. Mas, principalmente, é necessário que ela freqüente este espaço como forma de interagir com outras de sua idade e, deste modo possa se desenvolver como ser humano. O espaço de sociabilidade que a escola possibilita para o desenvolvimento da criança, é muito importante para que ela cresça e se transforme num adulto capaz de desenvolver suas competências e habilidades de forma plena e completa. Para isso, é necessário que haja uma interação entre duas instituições extremamente importantes dentro deste processo formativo, que é a família e a escola.
Viviane de Souza

É importante também que se perceba a legitimidade de outros lugares sociais como formadores da personalidade infantil. Apesar da escola e a família serem os principais espaços de convivência da criança, é crucial que outros espaços como a igreja, a rua e tantos outros tomem parte nesse processo educativo.E, que sejam considerados tão importante como os outros espaços.
O que eu estou tentando fazer aqui é chamar a atenção dos educadores para que estes percebam a diferença nos seus alunos e, deste modo possam construir na sala de aula um ambiente de harmonia, onde as diferenças possam ser vivenciadas não como defeitos a serem corrigidos, mas como pesas pertencentes a um jogo. Pesas que se completam e que dão a diferença, um lugar especial nesse labirinto da vida. Devemos, como educadores conscientizar os nossos alunos que a diferença faz parte da vida, e não é por alguém gostar ou fazer coisas que não concordamos, que ele não pode ter o nosso respeito ou nossa amizade. Devemos lembrar, também que o preconceito, ao mesmo tempo que fere alguém se torna alvo dele, identifica o ser preconceituoso como: atrasado, intolerante e criminoso, já que discriminar alguém por sua cor, sexualidade ou nacionalidade é crime.
Na maioria dos casos, as pessoas alvo de preconceito se tornam fechadas, amedrontadas e forçadas a se excluírem do espaço ou de grupos que se encontram. Este foi o caso de Elinaldo, ainda na infância, que por se sentir diferente, se retrai para que as pessoas não notassem a sua diferença, e deste modo não viesse sofre discriminação.
“Quando comecei a cursar a quarta série primária, eu tinha dez anos de idade. Ai eu já entendia melhor as coisas que aconteciam comigo.
Eu sempre fui muito quieto (na minha), não tinha muitos amigos, não falava com ninguém. Ia pra escola, estudava e voltava pra casa.
Tinha vergonha de falar para que as pessoas não percebessem que eu era gay. Eu reprimia ate a fala. Mas dentro de mim! Eu já sabia que não era igual aos outros meninos. As pessoas me forçavam a perceber isto. Eu observava que os outros meninos da minha idade adoravam futebol, já tinham suas malicias em relação a mulher! Eu não.
Eu detestava ver aquela coisa: homem correndo atrás de bola? Eu não via sentido naquilo. E daí! Começavam a me sentir diferente dos outros e isso fazia com que eu me reprimisse cada vez mais. Eu não saia... não aproveitei esse período da minha vida. Só comecei a curtir a vida a partir dos 14, 15 anos, que foi a época que fui embora..., que comecei a sair! ...

No ano de 1990, quando eu comecei a estudo no Colégio Professor Rangel. Eu achava que todos sabiam que eu era gay, e os que não sabiam, desconfiavam, ou esperavam que um dia eu viesse a ser. O Júnior implicava muito comigo! A Jane !? Eu morria de medo da Jane. Ela tinha uma boca que a língua não cabia dentro dela! Ela só falava gritando...E eu..., Nossa Senhora! Como eu sofria naquele Rangel.
O período que eu estudei no colégio professor Rangel foi um tempo gostoso.O problema é que eu não me enturmava por medo. Eu não queria que ninguém soubesse que eu era viado. A minha realidade era essa: eu não me aceitava, eu não me assumia por medo.
Hoje é diferente! Agente vê um garoto de 14 anos se requebrando..., e foda-se o resto!
Na minha época tinha poucos viados declarados aqui no Ingá! Pessoas que eu não me envolvia por não querer dar desgosto ao meu pai e aminha mãe.
Foi no período que eu estudei no Rangel (de 1990 a 1993), que eu comecei a me aceitar, a entender mais das coisas e não me envergonhar daquilo que estava acontecendo comigo.

Elinaldo de Souza França em gincana na praça Antenor Navarro, no Ingá em 1990.


No ano de 1994, fui estudar em campina Grande no colégio Estadual da Prata.Foi nesse período que eu tive um relacionamento com um garoto.Mas ninguém desconfiava porque eu fazia as minhas coisas muito escondidas. Eu me lembro disso porque ele era meu vizinho, e por ter sido mais que uma brincadeira.
Ainda no colégio Professor Rangel. Eu lembro das aulas de educação física do professor Edílson (sétima série), e do professor Abraão (oitava série). Esses momentos, para mim era os piores, porque era ali que a turma se dividia: de um lado as meninas; do outro os meninos.

Viviane de Souza, ainda como Elinaldo de Souza França no colégio estadual da Prata em  Campina Grande no ano de 1994

Os meninos iam jogar futebol, correr no campo, chutar a bola um para outro(...)
As meninas jogavam queimada, pulavam corda, brincavam de bambolé! E eu! Ficava sentado no meu lugar. Sempre olhando sem participar. Ficava sempre de fora, excluído
Uma vez eu participei do futebol. A experiência foi horrível!!!!! Deus me livre e guarde! Nunca mais na minha vida eu quis repetir a experiência. Eu só fazia correr! Um dos meus colegas que era muito peludo, corria para lá, para cá..., encostava em mim! ...eu achava aquilo horrível, nojento... eu não queria fazer aquilo ali! Aí eu saia do jogo. Deste modo, eu não participava dos jogos dos meninos porque não me sentia a vontade, nem das brincadeiras das meninas justamente para ninguém falar. No entanto, por dentro, eu ficava louca de vontade de esta ali no meio delas jogando queimada, sendo feliz”


















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