domingo, 19 de março de 2017

O DOSSIÊ DA PASTA ROSA - CAPITULO I: O MENINO E O ARCO - IRIS!


Uma ratificação: conversando com o personagem principal dessa história, ele novamente me autorizou a usar os nomes verdadeiros dos personagens envolvidos na história
Então: valdo ou Liliane corresponde aos nomes reais de ELINALDO DE SOUZA FRANÇA, OU VIVIANE SOUZA.  Dona Maria Corresponde a Dona Tonhinha. Vamos a história...

Ingá, janeiro de 2006
Antes de começarmos a gravar a entrevista, com a câmara desligada. Viviane me perguntava sobre os nossos antigos colegas do tempo em que cursávamos o ginasial. Me confidenciou paixões e medos. Mas isso, é assunto que iremos tratar mais adiante.
Ligamos a câmara. Viviane respirou fundo, tomou um pouco de rum Montilla com coca-la, e disse que estava pronta para responder a qualquer pergunta que eu a fizesse. Com um roteiro pronto, a minha primeira pergunta foi sobre a sua infância.

Viviane, ainda, um pouco  a vontade, descrever como foi a sua infância:
“Essas coisas assim(...) a minha família sempre foi muito rígida, muito religiosa. Um exemplo perfeito de família saudável e feliz, politicamente falando.
E, ...eu tive uma infância..., como é que se diz? ... Como qualquer garoto normal. Uma infância saudável: de brincar, de correr, de ir à escola, aquela coisa toda. Mas, eu sempre procurei, desde pequeno mais para o lado de mulher. Ou seja, brincar com meninas de bonecas, pular corda, pular cordão ...
No natal, época de ganhar presentes, era o período do ano que eu mais odiava, porque eu nunca ganhava o que queria.
Minha mãe, de manhã, antes que eu acordasse, colocava um carrinho de brinquedo em minha cama. Quando eu despertava, eu jogava fora, botava de baixo da cama. As vezes eu ficava imaginando que Papai Noel não dava o que eu pedia, porque o pobrezinho já estava tão velhinho e tinha tantos pedidos a realizar. Que se atrapalhava quando ia entregar o meu. E, era por isso que eu sempre ganhava carrinhos ou bolas de futebol ao invés de bonecas.
Eu adorava brincar com as bonecas de Albinha, minha irmã. Amava fazer roupinhas, comidinhas, arrumar as casinhas das bonecas. Era brincando assim que me sentia feliz. Mais eu não fazia isso para que as pessoas vissem. Eu tinha medo da minha mãe e do meu pai e por isso eu brincava escondido. As minhas brincadeiras de bonecas era um segredo só meu.
Meu pai era muito rígido. Tinha aquela coisa machista.Apesar de ser diferente dos outros meninos, o meu pai nunca me tratou com diferença. O tratamento que eu e meus irmãos homens tínhamos do meu pai era o mesmo.
Nessa fase da minha infância (dos 5 aos 12 anos) ele não reclamava e nem chamava atenção. Pelo menos nesta fase.
Apesar de ter um gosto diferenciado por brinquedos, e possuir um comportamento contraria a maioria dos meninos de minha idade.Eu nunca achei que aquilo que eu fazia fosse porque eu era viado. Hoje eu sempre pergunto a minha mãe se ela não percebia que eu era diferente. Mas mãe é aquela coisa: Mãe nunca sente, nunca ver, nunca enxerga a verdade quando se trata dos defeitos dos filhos.
Quando fui crescendo. Passei a evitar brincar com meninos.Nessa época, eu ainda, brincava com meninos, mas não era uma coisa prazerosa. Me mantinha sempre indiferente ao gosto da brincadeira compartilhada por eles.
Nas brincadeiras dos meninos, que eram quase sempre compartilhadas pelo meu irmão e primos. Cada um assumia uma identidade: um era o cawboy, outro era o bandido(...) eu não queria ser nada disso. Eu preferia ser a Mulher Maravilha. A Shera...
Na brincadeira com bonequinhos, eu sempre me identificava com a bonequinha! Eu sempre me via na bonequinha. Eu nunca me via como o boneco.
Por isso, meu irmão me batia. Me botava para fora da brincadeira, xingava. Mas eu nunca desistia daquilo que eu sentia.
Nesse momento da minha vida, eu ainda, não me sentia diferente. Nessa idade nenhuma criança, apesar de parecer diferente. Ela ainda não nota a diferença. Nessa idade agente não liga muito para essas coisas. Agente vai vivendo e deixa se levar.
Escutava muito isso: “Sei não! Esse menino é viado! Eu já escutava isso das pessoas, mas não dava confiança.
Eu lembro de quando eu brincava com as meninas de bonecas. E, que muitas vezes os pais delas me botavam para fora de casa pensando que eu estava ali brincando de medico. Ai! Eu ia chorando para casa. Me deitava sozinho na cama! Chorava muito. E, pronto, passava.
Sexualmente falando. Eu não tinha malicia. Eu não possuía um lugar. Eu estava perdido; era um ser que não tinha um espaço; não sabia o que era certo ou errado. Eu não tinha me descoberto ainda.
Eu era um menino, no entanto, não me sentia como tal.Me sentia uma menina presa no corpo masculino. Para mim era muito normal sentir dessa forma. Mas as pessoas não viam desse modo fazendo-me sofrer. As vezes eu pensava que iria enlouquecer.
Quando eu cheguei na fase da adolescência, passei a entender melhor as coisas que aconteciam comigo. Até aí, não tinha tido nenhuma experiência sexual. Brincava com os meninos de cachorrinho, mas tudo sem maldade. Na brincadeira de cachorrinho, um dos dois participantes tem que assumir a posição de um quadrúpede e o outro pula sobre ele.Os meninos mais velhos tinham saliência, mas eu não.
Foi na brincadeira de cachorrinho que eu comecei a me descobrir. A descobrir o que eu era e de que gostava. Sexualmente falando.
Eu tinha um vizinho que me levou pra..., foi me ensinando umas coisas! Mas tudo brincadeira! Nada de...de...é por que eu tô com vergonha de ser bem..., bem..., direta. Eu não tinha maldade na época, mas eu sempre brincava com pessoas mais velhas e essas pessoas se aproveitavam de mim.Tentavam assim..., brincar daquele jeito..., eles de cachorrinho, eu de não sei o que. Mas eu sempre procurava evitar esse tipo de situação. Porém, foi a partir daí que eu comecei a me descobrir, sentindo dentro de mim aquele desejo, aquela vontade de ser tocada pelo outro, mas tinha muito medo.
          A lembrança mais forte que guardo até hoje da minha infância, esta associada a uma crendice popular, muito comum no nordeste. Eu não podia ver um arco-íris que saia desesperada sonhando e desejando que , ao ultrapassar seu arco ele revelasse o meu eu verdadeiro,e assim, me libertasse daquela prisão sem muros que era o meu corpo masculino.
         Pra minha tristeza, o arco-íris sempre sumia antes que eu o alcançasse.No entanto, nunca desisti de persegui-lo. De busca-lo sempre que podia no horizonte. Não importava se ele não estava lá. Não importava se eu não conseguia enxerga-lo. A esperança e a fé que eu tinha  no poder mágico do arco-íris de transformar o menino que ultrapassasse o seu arco em menina, fazia com que eu buscasse , cada dia triste da minha vida uma gotinha de felicidade pra continuar vivendo.”
        O interessante nessa narrativa de Viviane , que trata do poder mágico  que o arco-íris possui de transformar meninos e meninas; faz parte , na verdade do acervo cultural do folclore nordestino. Trata-se de contos, ditos populares que são criados ou imaginados pela população nativa desta região. E, como qualquer manifestação vinda do povo. Não se sabe a sua origem, porque e quando começou. O que temos certeza é que as pessoas acreditam piamente nesse poder transformador.
      Imagino, eu, que esse mito popular tenha surgido justamente para explicar a condição de afeminados de alguns homens, já que o nordestino não encontrava uma outra explicação,a não ser a maldição do arco-íris, para justificar a delicadeza de pouquíssimos conterrâneos. Conhecidos por sua bravura e macheza, o nordestino jamais poderia assumir que existissem em sua terra... No seu torrão; Homens naturalmente delicados.
     Justificado o nome do capitulo através dessa breve discussão sobre a crendice popular que envolve o personagem central de estudo neste texto. Buscamos agora, as causas sociais ou os acontecimentos cotidianos em sua vida que Favoreceram o nascimento de Viviane.
    Primeiro, é interessante notar que Naldinho, apesar de não ter consciência disso, nunca se identificou com o seu sexo ou a sua condição masculina. Negava e rejeitava tudo que poderia assumir um aspecto masculino. Odiava brincadeiras com carrinhos e bolas de futebol. Amava bonecas e as heroínas de seriados de televisão e desenhos animados. Gostaria de ser elas. Não via na figura masculina algo que lhe incentivasse  a querer ser igual. O mundo masculino era muito rústico e corrido. No mundo feminino ele se sentia em paz. Gostava da delicadeza que as meninas transpiravam através dos gestos, da fala, do olhas, dos movimentos(...) Ali, tudo para ele assumia um sentido mágico.Ele amava o mundo das meninas, principalmente porque era ali que ele se sentia bem, se tornava igual, apesar de ser diferente. Não se sentia um extra-terrestre.
       No inicio deste capitulo citamos que iríamos procurar as causas que proporcionaram a transformação de Nal em Viviane. Cheguei uma conclusão: na verdade essas causas nunca existiram, já que Naldinho, ou Elinaldo, ou Nal, nunca possuiu um sentimento de pertencimento que o ligasse emocionalmente a classe ou ao gênero masculino. Deste modo, Viviane sempre existiu. É, verdade, escondida no borralho, identificada por um outro nome. E, amaldiçoada por um capricho natural que prendia a sua essência de mulher, em um corpo masculino. Mas como um perfume não se conhece pelo frasco e sim pelo que esta contido no seu interior. Deste modo é Viviane.
     Parafraseando Shakespeare, “ o que é um nome? A flor a que chamamos rosa, com outro nome teria o mesmo perfume. “ Assim, um nome não é pé, nem mão, nem qualquer outra parte do corpo de um ser humano. A quem conhecemos como Viviane hoje, e que antes atendia por o nome de Elinaldo, é verdade, não existe mais. O corpo já não é o mesmo (pelo menos anatomicamente). Mas os seus princípios, o seu caráter, e tudo aquilo que foi ensinado pelos seus pais enquanto criança, permanece intacto.
     A natureza cria e o homem transforma. O ser humano tem o poder de modificar a realidade que lhe rodeia. No entanto, o que ele recria tornara-se bom ou mau dependendo daquilo, que ao meu ver, é indestrutível. Que é o caráter e os princípios de cada um de nós.
     Elinaldo modificou o corpo, se deu um novo nome. Inventou um mundo para ser feliz, porem, apesar de tudo isso não esqueceu de quem era, do que passou e de onde veio. Sabe que aquilo que se tornou é apenas uma continuidade do que foi. E isso o torna cada vez mais verdadeiro e forte como pessoa e como filho.




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