sábado, 11 de março de 2017

ESTAÇÃO FERROVIÁRIA DO INGÁ: As glórias conquistadas no passado chafurdando na lama do descaso e esquecimento!

Foto: informativo da Great Western. Fonte: Jônatas Rodrigues Pereira

Não lembro direito! Acho que tinhas uns quatro anos... Mas lembro que meu pai me chamou pra ir com ele à casa de um dos seus amigos, o senhor Roberval, que morava no bairro da estação. Lembro que a estrada tava muito enlamaçada, pois havia chovido muito, e por fim não conseguimos chegar lá. Essa teria sido a primeira vez que eu iria entrar em contato com todo aquele universo tecnológico e barulhento que eu imaginava que o trem fosse, se não tivesse havido o empecilho da lama nos impedindo de chegar ao local.


Estacão Ferroviária do Ingá-PB, março de 2017. Foto: Alexandre Ferreira
Anos depois, já adulto e pai de família, o trem continuou exercendo um fascínio muito forte sobre mim. Lembro de alguns episódios, eu, já morando no Bairro de Hardman, quando escutava o barulho do trem, mais que depressa pegava a minha filha (Marcela Mereles Ferreira, obs: ela pediu pra colocar o nome completo rsrs) colocava no colo e ficava  tentando mostrar a ela o trem passando lá longe entre a vegetação, visto da minha janela.
Hoje, o trem foi desativado, os trilhos foram invadidos por capim e uma vegetação rasteira, os dormentes apodreceram e tudo aquilo que motivava tanta alegria e imaginação, está sendo destruído devido ao descaso e abandono nos quais se encontra a linha férrea e a Estação Ferroviária do Ingá.
Símbolo de progresso e modernização, a Estação Ferroviária do Ingá foi inaugurada em 1909, pela Great Western, ligando Itabaiana, Ingá e Campina Grande pelo caminho de ferro. Além de servir como transporte rápido e barato para escoar o algodão que era produzido na Vila do Ingá, que até então era transportado por carroças e em lombo de mulas, o trem serviu para encurtar a distância ou o espaço entre as pessoas.


Foto: linha férrea, em vermelho.
 Até a chegada do trem na vila do Ingá o meio de transporte mais comum utilizado pela população era de tração animal, ou seja, as pessoas se utilizavam de burros, bois, cavalos e mulas para se locomoverem entre uma localidade e outra. As pessoas mais pobres e que não possuíam nem mesmo um animal para se locomover, tinha que viajar a pé.
Com a presença do trem na Vila, a população passou a mudar seus hábitos de consumo e a ter um maior acesso a informação e as notícias que vinham da Capital.
O luxo e a ostentação tornaram-se parte da vida da elite agrária ingaense fato esse que era percebido na decoração dos casarões, nos móveis e nos utensílios domésticos como: objetos de porcelana chinesa, vasos de prata, pianos (mesmo o proprietário não sabendo tocar), taças e objetos de cristail.
O modo de vestir também sofreu mudanças com a chegada do trem. Pois a partir de 1909, tanto as mulheres como os homens da Vila passaram a se vestir a moda inglesa. O requinte e a elegância se tornaram marca da sociedade ingaense.


Foto: Dona Mocinha e sua Enteada
Nos Festejos do Rosário a sociedade se vestia como se fosse participar de um baile na corte: os homens usavam paletó, gravata, chapéu e viam as horas no relógio de algibeira. As mulheres se vestiam com trajes longos, meias e joias.
No Ingá abriram-se vários ateliês e alfaiatarias para atender as necessidades da sociedade que assumira gosto requintado de padrões estéticos condizente com a moda europeia ou das grandes capitais do Brasil como Recife e Rio de Janeiro.

[...] Paletó e gravata. Quem fazia a roupa aqui... Papai fazia em Campina Grande com Fausto alfaiate. E aqui tinha Ruga, irmão de Meredith, ele era alfaiate. O sapato era com Oscaroca, foi um dos fundadores do mercado de sapato aqui, Edson Morais. Oscaroca era um sobrenome. Os sapatos produzidos aqui eram, vendidos em Serra Redonda, Juarez. (BACALHAU, 19/12/1941).
          Além de motivar o crescimento econômico e encurtar a distância entre as pessoas e o acesso a bens de consumo e informação. O trem possibilitou a sociedade ingaense mudança de hábitos e a percepção de mundo e das coisas.
          O progresso vivenciado com a presença do trem no Ingá revelou outra face: a face da destruição do meio ambiente como mostra o poeta ingaense, antigo morador do Bairro da estação, João Paulo Sobrinho em seu Poema “Meio Ambiente”.



Diário da Borborema - 14 de Maio de 1967 - Da "Maria Fumaça"
 Poética a Locomotiva de Carga Fechada.

As baraúnas tombaram
As aroeiras morreram
Os pau d’arcos pereceram
Os angicos se acabaram
Catingueiras se queimaram
Camarú virou carvão
Mororó, rasga jibão
Jucá, jurema, espinheiro
Louro, mari, mameleiro
O homem é culpado ou não?
Onde está o jatobá
Ameixa, ipê, limãozinho
Câmara branco, chumbinho
Velame, incó, caruaá
Cavassú e gravatá
Pau santo balsamo sagrado
Canela e pé de veado
Bom nomo, urtiga e umburana
Canafistula e taguarana
Ninguém sabe o resultado 
Essa tal de ferrovia
Assolou como uma peste
Das florestas do Nordeste
Tirou tudo o que queria
Quando mais nada existia
De madeira pra cortar
Inventou de fabricar
Seus dormentes com cimento
O seu ato violento
Tinha como se evitar
(João Paulo e José Veríssimo: In: Presente, passado e poesia p. 46)
          A presença do trem no município assumiu significados diferentes para os ricos e para os pobres. Enquanto para a elite significou conforto e acesso a bens de consumo, para os menos abastados significou desolação e destruição de relações antigas que mantinham com a natureza. Pois esta lhes oferecia remédios, frutas e comida.
            Hoje a Estação Ferroviária do Ingá se encontra totalmente abandonada, apesar de constituir parte do Patrimônio Histórico e Artístico da Paraíba, reconhecida em 2001 pelo IPHAEP, a sua presença parece não despertar muito interesse ao ingaense.
            Esse descaso com o patrimônio é também percebido pelo geógrafo e pesquisador paraibano Jônatas Rodriguez Pereira:

Foto: Geógrafo e pesquisador paraibano
 Jônatas R. Pereira

"Mais um patrimônio desprezado pelos poderes públicos. A velha estação de Ingá está passando por toda a mazela de um prédio histórico desprezado por muitos. O mais surpreendente é que a velha estação de Ingá é tombada pelo IPHAEP desde 2003. Mas está literalmente "tombando" com ação do descaso e de vagabundos/criminosos que usam o espaço para consumirem drogas e praticar vandalismo"





É revoltante olhar a estrutura histórica do prédio e imaginar que se nada for feito de imediato no sentido de sua preservação, grande parte da história do município será amputada.
Lembremos dos gregos, dos romanos e até mesmo do povo desconhecido que insculpiu as Itacoatiaras do Ingá!


Lembremos que a cultura é o que nos diferencia dos demais animais nos dando lugar... nos referenciando como HOMO SAPIENS.










Imagens: Alexandre Ferreira

Um comentário:

  1. Sou bisneto de Edna Luz conhecida como D. Dinha, e o blog retrata exatamente um período saudoso da casa da minha bisavó nos tempos áureos do algodão, as vestes, a decoração inglesa e os utensílios chineses comporam o casarão da fazenda da minha bisavó, não tenho muito conhecimento de como tudo hoje está e com que está, mas os fatos narrados e mimos e presentes dados por D.Dinha de suas viagens para a Europa ainda existem no âmbito familiar em Campina Grande.

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