quarta-feira, 15 de março de 2017

DONA ZILNEIDE E OS SONHOS DA SENHORA MENINA EM VER A BANDA PASSAR!

Depois de muito tempo tentando manter contato. Depois de muito perguntar a Neila: Cadê Dona Zilneide? Finalmente hoje ela me adicionou ao zap e tivemos uma conversa pra lá de ótima!
Mas de quem estou falando? Bom ela foi diretora do Abel, quando eu era aluno lá, é mãe de um dos meus melhores amigos (Rafa), é professora, se preocupa assim como eu com os rumos que vinha ou vem tomando a escrita da história do nosso município, e hoje é com muito orgulho que posso dizer que somos amigos! Afinal Zilneide de Barros Matias (rsrsr não sei se ainda  usa esse nome) foi uma das pessoas que apesar de não nascida no Ingá, sempre a vi como conterrânea por suas atitudes e amor ao lugar.



Socióloga Zilneide Barros Matias 

A pesar de conhecer Dona Zilneide a vida toda, a minha aproximação maior com ela foi em 2004-2005, no momento em que eu assim como ela, estávamos prestes a concluir a graduação, eu em história, ela em sociologia, pela Universidade federal de Campina Grande. Foi nesse período que, sempre que podíamos, nos sentávamos em frente a sua casa e tínhamos conversas infindas – eu sobre o turismo e suas representações locais, ela sobre a Banda 31 de março e sua importância para o município.
Lembro-me que as vezes eu a encontrava na rua, com um chapéu enorme na cabeça, uns óculos escuros e a pele embranquecida de protetor solar, e lhe perguntava:
- De onde a senhora vem?
Ela respondia:
- Menino! Tava entrevistado fulano! Olha o que descobri....
E aí, ali na rua mesmo passávamos a trocar figurinhas sobre a história do meu, alias do nosso Ingá...
Nós Ingaenses, hoje temos muito que agradecer a Dona Zilneide, pois sem ela, sem o seu amor incondicional pela Banda 31 de março (amor esse que falta por parte de muitos conterrâneos) não teríamos escrita a história de uma instituição que fez a alegria de ricos e pobres em nosso município.
É por este motivo, que nós do Blog O Ingaense, escolhemos esta figura ilustre (não soberba/orgulhosa), ilustre mesmo por suas ações e sua história, para inaugura a Coluna GENTE neste veículo de comunicação.
A ela! Nosso muito obrigado!

Abaixo, segue um resumo da pesquisa de Zilneide Barros Matias sobre a Banda 31 de março, pesquisa esta que ela transformou em monografia de conclusão de curso em sociologia pela Universidade Federal de Campina Grande.

Boa leitura!



FILARMÔNICA MUNICIPAL 31 DE MARÇO: PASSADO OU FUTURO?
Zilneide Barros

“A minha gente sofrida despediu-se da dor pra ver a banda passar cantando coisas de amor” (Chico Buarque de Holanda)


As bandas marciais são de origem europeia, sendo popularizadas pelos antigos romanos sob a influência dos gregos que valorizavam a formação militar e a sensibilidade artística. As bandas marciais são um conjunto de instrumentos de sopro e percussão, onde seus instrumentistas (músicos) executam pequenos concertos e marchas estudantis, cívicas ou militares.
Na Paraíba segundo Irineu Pinto (Apud MELO,1993, p.213), a primeira banda de música surgiu em 1801 e pertencia ao corpo de Infantaria Paga, era composta de um tambor mor (regente), 2 pífanos e 2 tambores, enriquecida em 1809 com clarinetas e fagotes, tendo como seu primeiro mestre Manoel de Vasconcelos Quaresma.
Para Domingos de Azevedo Ribeiro (1997)

“A música traduz o passado, reflete o presente e indica o futuro. Tem portanto, a fisionomia do seu tempo. A alma é o único diploma do artista; sem ela, então, sem aquelas figurações que caracterizavam o autor, a obra de arte é apenas mecânica, vitalizada somente pelos valores técnicos. É preciso o espírito humano funcionar em imaginação, que é a ação criadora.”

Ainda segundo esse fantástico musicólogo paraibano, A banda de música é incontestavelmente uma tradição da musicalidade brasileira, parte integrante do patrimônio artístico da nacionalidade.
Um cidade sem banda de música representa no campo da arte “um deserto de agreste aridez”. E como diz Abílio Cezar (1961) “ninguém deve negar que a


Participação da banda na inauguração da ponte de Riachão.

alegria do povo da cidadezinha interiorana em época festiva é povoada pela sua banda de música.” (CEZAR, 1960 apud SOUZA 2003).
Desde o final da década de 70 que resido no município de Ingá. Logo que cheguei aqui, algo me chamava atenção e me fazia muito bem. Em algumas datas comemorativas a cidade era acordada por sons de instrumentos de sopro e percussão. Era a alvorada tocada pela Banda 31 de março – O tempo foi passando e o sons daqueles instrumentos calaram-se...


Em Ingá, as bandas marciais existem desde o final do século XIX. As primeiras foram à banda Maria Luiza e a Joana Cabral, até que chegou à cidade, vindo de Pernambuco o Sr. José Severino de Araújo, conhecido Cazuzinha, que fundou a Filarmônica municipal 31 de março com um grupo de amigos e filhos onde ele era o maestro. Após alguns anos de incentivo e colaboração o  mestre Cazuzinha mudou-se para João Pessoa com sua família. Seus filhos Severino, Jaime, Manoel e Plínio seguem as trilhas do sucesso musical fundando a Orquestra a Tabajara, fixando-se no Rio de Janeiro.


Primeira foto da banda 31 de Março tirada em frente a Igreja matriz de N.S. conceição no dia 31 de março de 1933.

O dia 31 de março de 1933 foi uma data festiva, que entrou para a história local. Segundo o sr. Manoel Pequeno de Medeiros: “Era uma sexta-feira Santa e pela primeira vez apresentou-se em público a banda que foi batizada com o nome do dia e mês de sua estréia. Filarmônica 31 de Março – Banda de Música”. A partir de então ela passou a fazer parte do cotidiano cultural deste povo.
Segundo informações obtidas em entrevistas em 10 de outubro de 1983 ao senhor Eduardo Ferreira de Morais e ao senhor Valdivon de Morais Lima por um dos fundadores da banda, o senhor Manoel Pequeno de Medeiros. Ele contou que as bandas anteriores haviam se desfeito, a última a qual ele foi um dos integrantes, foi extinta por causa do falecimento de senhor Manoel da Costa Travassos (músico).
O prefeito Antônio Cabral de Melo, reivindicado pela população e sentindo a necessidade de alegrar a cidade resolveu reativar a banda no ano de 1933, contratando um novo organizador, o mestre Cazuzinha e seus filhos, para que junto aos músicos ingaenses alegrssem a comunidade.
Os músicos reuniram-se com o novo organizador para a escolha do nome da banda, não queriam usar os nomes das bandas extintas, pois se assim o fizessem poderiam dar preferências.
Segundo o senhor Antônio da Luz Amaral (seu Pitota, 81 anos). “Lembro como se fosse hoje, Cazuzinha disse na reunião: “Para não haver preferência, vamos colocar o nome de Banda 31 de março”. E assim ela foi batizada”. (fevereiro de 2005). Foi o nome do dia e do mês da estréia.
Com o apoio da prefeitura a banda surge com garra e vontade. Era composta pelos músicos: José Severino Araújo (Cazuzinha), Emídio Cardoso de Almeida (Lau), Manoel Pequeno de Medeiros, Severino Araújo , Plínio Araújo, Jayme Araújo, Fernando Moura, Milton Luiz de França, Alcides Ribeiro do Amaral, Eufrásio Pereira da Silva, Severino Gomes da Silva (Bole), Durval Moreira de Andrade, Zé do Piston, Epaminondas Travassos e outros.
Segundo o senhor Manoel Pequeno Manoel de Medeiros, com esse grupo, formou-se uma das maiores bandas de interior paraibano.
A banda pertencia à prefeitura, os instrumentos, fardamentos e a sede eram por ela financiados. Todas as suas sedes foram na rua João Pessoa. Durante o período da nossa pesquisa fomos informados que a banda possuía um estatuto, o mesmo não foi encontrado. Por tanto nosso trabalho se desenvolverá basicamente através da tradição oral.
Com a saída de alguns membros, outros se incorporavam à banda, para que a mesma  prosseguisse a trajetória de sucesso. Na sede funcionava uma escolinha, onde por interesse, amizade ou por parentesco os alunos eram ensinados a tocar os instrumentos por meio das partituras.
A Banda 31 de março era o que de mais atrativo acontecia na cidade. Até a década de 70 ela participou de festivais, tocava carnavais, na cidade e em outras localidades, dividindo-se em pequenas orquestras. Além dos carnavais sempre era requisitada para abrilhantar procissões, recepções a autoridades, desfiles cívicos, campeonatos de futebol, inaugurações, além de participações de rituais fúnebre tais como: enterros e a procissão de Nosso Senhor Morto na Semana Santa.
Nesse período outros músicos fazem parte da banda, dentre eles, segundo o senhor Antônio Francisco da Silva (Patativa), três mulheres participaram (da orquestra) como vocalistas, Maria Batista, Elza Leite e Mocinha Bezerra (primeiras mulheres), e ainda João Gomes da Silva, Macia, Manoel Barbosa, Samuel Monteiro, Assindino Paiva, José Fonsêca da Silva (Zé de Julho), José Alves da Silva (Zé de Margarida), Severino Nunes da Silva (Birino), Severino Nunes da Silva (Minan), Antônio Travassos, José Pereira da Silva (Zezinho), Edmilson Pereira da Silva (Nicinho), Gilvan Gonçalves da Costa, José Gomes da Silva, Manoel Santiago Filho (Nesa), e outros.
Entre os vários integrantes entrevistados, é destacado o empenho e a dedicação do senhor Eufrásio Pereira de Silva, em formar novos músicos, dedicando boa parte do seu tempo às aulas de música para novos alunos. Com isso deixaria plantado no ingaense o interesse pela preservação da banda, da qual ele era um grande defensor. “Seu Eufrásio”, era fiscal da prefeitura, e um músico por excelência. Chamado para tocar na banda da Polícia Militar, em João Pessoa, ocupando a patente de sargento, passou apenas dois meses, retornando a Ingá e prosseguindo com a 31 de Março.
Outro  músico destacado por vários entrevistados, é o senhor Severino Nunes da Silva (Birino), que integrava a banda desde 1949. Birino deu sua parcela de contribuição, na formação de novos músicos, na divulgação da banda como orquestra no carnaval, na participação de festivais, dedicando assim grande parte da sua vida ao fortalecimento da banda.
Dá década de 80 até o ano 2000, quando a banda “silenciou”, seus integrantes, além de alguns já citados eram, segundo Eufrásio Pereira da Silva Filho (Flávio, último maestro): Pedro Machado, Zé de Virginio, Manoel Romualdo do Nascimento, Zezinho Niceto, Tóta, Cícero, João Cosme, Fernandes, Natanael, Severino Vicente de Araújo (Edmilson), Cláudio Geraldo, José Ivanildo, Elias Assis da Silva, Sergio de Patativa, Biu de Lilita, Paulo Leonardo da Silva, Raminho, Zé de Santos, Antônio Santiago, Zé de Petronilio, Zé de Elidia, Tiburcio, Ednildo, José Gomes da Silva (Dêdo de Bole), e as mulheres Gyrla Nara Santiago (Narinha), e Adriana Rosendo Barbosa. Elas foram às primeiras mulheres  a tocarem instrumentos na banda.


A banda possuía os seguintes instrumentos:
Trompete–(Piston), Trombone–(Pisto), Trombone–(Vara), Bombardino, Trompa, Tuba, Saxofone (Alto), Sax Tenor, Sax Barítmo, Trompa de Harmonia, Clarineto, Requita, Fagote, Trompete (Bugue), Bombo, Prato, Tarol, Surdo.
Sendo esses os instrumentos que compõem uma banda marcial, encontramos nessa pesquisa um projeto de lei de 17/07/de 1968 autorizando a prefeitura vender uma sanfona pertencente à banda 31 de março.


  • José Severino Araújo (Cazuzinha)
  • Nelson Francisco de Souza Leite
  • Alcides Ribeiro do Amaral
  • Patrício Gomes de Andrade
  • João Franco de Oliveira
  • José Epaminondas Bezerra
  • Emídio Cardoso de Almeida
  • Eufrásio Pereira da Silva
  • Francisco Leite
  • Félix Ribeiro
  • Manoel Pequeno de Medeiros
  • Severino Nunes da Silva (Birino)
  • Severino Nunes da Silva (Minan)
  • Eufrásio Pereira da Silva Filho (Flávio)
Banda 31 de março sob o comando do maestro Minan


Retreta é apresentação de banda de música em praça pública.
Em 1961, a Argos Industrial S.A de São Paulo (fabricante de tecidos), patrocinou em Campina Grande um concurso de Bandas de Música, intitulado SALVE A RETRETA. Com o apoio do Diário da Borborema e Rádio Borborema e Cariri, a divulgação foi feita de junho a setembro. O regulamento dizia que só doze bandas poderiam se inscreverem. O concurso se dividia em três grupos (A, B e C), sendo escolhida uma em cada grupo. Os prêmios seriam: fardamento completo e troféu. Os programas eram gravados nas cidades de cada banda e apresentado aos sábados e domingos pela Rádio Borborema.
A Banda 31 de março participa e é vitoriosa, ficando em primeiro lugar no grupo “C”. Apesar da vitória, no dia da entrega dos prêmios a banda foi surpreendida pela fatalidade. O ônibus em que viajavam para Campina Grande colidiu com um lambretista que teve morte imediata, impedindo assim o prosseguimento dos músicos. Apesar de terem saídos ilesos, não foi possível comparecer as festividades de entrega do prêmio.
 Em 28 de novembro de 1961, em Campina Grande, na Praça da Bandeira, local das apresentações, as festividades foram suspensas numa atitude de solidariedade humana.


“A banda representa uma tradição, uma cidade que tem uma banda é privilegiada”. (moradora).
As bandas de música constituem nas cidades um dos mais importantes patrimônios socioculturais, principalmente se pertencerem ao poder público, ou melhor ao povo.
Segundo vários integrantes, a Banda 31 de Março sempre pertenceu à prefeitura que a financiava para abrilhantar as festividades locais. Não encontramos nenhum registro de seus integrantes contratados pela prefeitura como músicos. Não há no quadro de funcionários a função de músico. Os que faziam parte da banda possuíam  registro em carteira com outras funções (vigia, fiscal, porteiro, zelador, etc).
Desde o seu surgimento, a banda abrilhantava as festas religiosas, as procissões, os enterros, carnavais, e festas cívicas. Nas principais datas cívicas e comemorativas, ela faziam a “alvorada” (das 4:00 as 6:00 hs da manhã) a população era acordada aos sons dos seus dobrados (“marcas do que se foi”). Durante o mês de maio, ela tocava todas as noites a pedido dos noitários nas celebrações marianas da Igreja Católica, recebiam pequenas gratificações, fora este período, apresentavam-se no coreto da praça três vezes por semana onde tocavam: dobrados, boleros, baião, samba e valsa. A recepção por parte da população era grande, as retretas no coreto era motivo de orgulho do ingaense.
A dedicação dos músicos era tão importante que eles não se preocupavam com o retorno financeiro, aqueles que não eram funcionários recebiam uma espécie de “subvenção”, pequena gratificação paga pela prefeitura, o pagamento seria em recibo em nome do maestro que repassava aos músicos. Aqueles que eram funcionários da prefeitura recebiam seus salários mensais conforme atividade em registro na carteira.


Como instituição privada a banda 31 de março destacava-se no carnaval. Seus componentes se subdividiam em pequenos grupos formando orquestras que eram contratadas para tocar em outras cidades e estados. Um desses grupos se destacou, era a orquestra Canarinhos do Frevo, tendo como organizador o maestro Birino (“O bico de ouro”). Como a banda era famosa nesse período seus músicos ganhavam um pouquinho mais. Eram contratados por empresários ou até por prefeituras de outros municípios e clubes particulares.


A partir do ano de 2000, a comunidade ingaense perde sutilmente um importante patrimônio sociocultural. O desfecho “trágico” do “adormecer’da Banda 31 de Março ocorreu de forma cautelar, não houve protestos públicos e/ou oficiais, discussões, comentários. E assim o tempo vai passando e não percebemos a lacuna que deixa um patrimônio de tal envergadura.
Estamos diante de um impasse, como pode  uma banda de música onde seus fundadores, por terem fama e reconhecimento internacional, e outros, gente do povo, gente que enaltece a nossa cultura popular, se calar?
Não importa os motivos pelos quais a Banda passou a “adormecer”. Mesmo sabendo que um deles foi desentendimento entre seus integrantes por ingerência política. Se a banda pertence à prefeitura e seus dirigentes, não interessam mais por ela, para quem, quando,  como e onde vamos tocar?
O resgate da cultura, leva o individuo ao seu engajamento no coletivo, aumenta sua consciência de mundo e o fortalece como ser humano capaz de produzir um pensamento crítico.
A valorização do saber social de uma comunidade está exatamente no conhecimento de suas bases culturais.


A população de Ingá, acostumada com os sons dos instrumentos da Banda, o consideram como sendo uma parte integrante do seu povo.
Uma reportagem no Diário da Borborema de 19-11-1961 dizia que: Ingá, há mais de um século, conta em sua história com a música, sempre cultivada pelos seus próprios filhos.
É indiscutível a reação de desencanto das pessoas entrevistadas, por unanimidade, elas sentem a falta da banda.
“Só saudades ficou, tinha retreta no coreto onde as moças passeavam e as crianças pulavam nos próprios canteiros de grama ao som da banda.” (moradora)
Este coreto fica na praça Antenor Navarro em frente à Igreja de Nossa Senhora da Conceição, no centro da cidade. Era nele que os músicos tocavam suas retretas para o encanto do povo.
A banda representava o próprio existir do Ingaense, ela era a sua voz, sua alegria, seu orgulho. Uma cidade pequena com sons que ecoavam no horizonte musical. Aqueles instrumentos eram uma representação da própria identidade daquela gente.
“A banda representava tudo para mim, relembro os tempos de criança, as alvoradas, os carnavais, as procissões e outras comemorações.” (moradora)
A tradição é algo a ser preservado, é através dela que damos sentido ao mundo. Com ela nos tornamos mais sensíveis e podemos expressar nossas emoções. Quando uma moradora que entrevistei pronunciou a frase: “Senti muito com o afastamento da banda, ela é uma tradição” (moradora), pude perceber o quanto à banda significava para ela. Sua expressão, era de total desencanto.
Quando se desfaz de uma tradição que faz parte do cotidiano de um povo, é como se uma parte da vida fosse jogada fora. Segundo ARANTES (1990) os símbolos culturais tem existência coletiva e são passíveis de manipulação. No caso da banda percebemos isso claramente quando um morador diz:
“O meu maior ressentimento é por esta banda, ter sido descartada pelo poder público municipal.” (moradora).  Para ele a manipulação do poder público levou este patrimônio ao descaso.
Como diz o ditado: “o artista vai onde o povo está”, os ex-integrantes da Banda 31 de Março são cobrados pela população, mas, como são minoria permanecem na expectativa. Se houver apoio voltam a tocar. Um deles nos disse:
“A revolta do povo é pela extinção da Banda, se ela voltar tocaremos do jeito que estávamos”. (músico).
Ele deixa claro que a sua vontade e capacidade continuam firmes, eles sabem tocar. Os músicos sendo homens simples sem vínculo político partidário, ficam a mercê do poder político. Nesse momento é desconsiderada a representatividade do coletivo, de um ideário, de uma tradição cultural prazerosa.
“A banda é uma cultura é um símbolo que representa nossa cidade” (estudante).
Os nossos colonizadores, se utilizavam muitas vezes da música para conquistar os indígenas. A música fortalece nossas sensibilidades, aproxima, une, transcende. Concordo quando um morador diz:
“A banda de música é muito importante para a sociedade, pois a sociedade sem música não é nada.”
Desfazer de um patrimônio como esse é indiscutivelmente um ato insano,  de completa desvalorização da cultura, que reflete diretamente na qualidade de vida da população, é o que podemos observar nos depoimentos abaixo.
“Pediria as autoridades competentes que olhassem mais para nós como músicos e dessem cobertura para nós podermos seguir adiante.” (músico).
“A Banda 31 de Março é muito importante para a cultura de nossa cidade, por que ela está sendo desvalorizada? Cabe a nós darmos importância para o crescimento deste patrimônio cultural, apreciá-la com carinho, sabendo compreender a importância de sua existência”. (estudante).
“Para nossa cidade a Banda 31 de Março é uma grande riqueza cultural, pois ela, além de fazer parte da história do município, foi também uma escola que contribuiu na formação de vários músicos”. (professor)

4. CONSIDERAÇÕES FINAIS

O Brasil republicano do século XX, mostrava desenvolvimento. Aquilo que foi aprendido do estrangeiro, ia se adaptando e se transformando na cultura brasileira.
A Filarmônica municipal 31 de Março surge em 1933, um marco para a história cultural de Ingá. Na sua primeira década de existência, convive com mudanças de sete prefeitos. É uma instituição ligada à prefeitura, pois só a mesma tinha condições de bancá-la, para abrilhantar todos os eventos sociais, religiosos, políticos na cidade e em outras localidades.
Na segunda década contava com mais integrantes. Tornava-se cada vez mais famosa e possui seu próprio estatuto, que era respeitado na íntegra. Seus integrantes se sentiam nos dias de apresentação o centro das atrações. Seu fardamento era impecável, usavam chapéu (quepe), sapatos engraxados. Tocar na banda dava-lhes um certo status.
A partir da terceira década até o ano de 1988, ela permaneceu no seu apogeu, participou de festivais, ganhou o 1º lugar em 1961 – no concurso “Salve a retreta” em Campina Grande. Mudou várias vezes de fardamento, já se adequando as novas tendências de vestuário, não usam mais paletó. Alguns músicos já se foram outros tiveram que deixá-la para ir em busca de melhores condições de vida.
A banda contínua pertencendo à prefeitura instrumentos, fardamento e sede. Cada integrante, ao deixar a banda, deixa também seu instrumento. Porém a sobrevivência do mesmo não depende da prefeitura. Alguns são funcionários com outra atividades os que não são, recebem pequenas gratificações.
Em toda sua trajetória não houve, concurso para ingresso de novos componentes, seus integrantes (homens) são convidados por parentesco, amizade e interesse próprio. Não há no quadro de funcionários da prefeitura a função de músico.
Outro aspecto que nos chamou a atenção, é que para fazer parte da banda não era exigido grau de escolaridade.
“A música não depende de leitura, do estudo, a leitura da música era diferente.” (músico), aqui fica claro que aprender tocar música era aprender ler as partituras.
Portanto era exigido, respeitar o regulamento e participar dos ensaios.
Do ponto de vista sociocultural fica claro a lacuna deixando por este patrimônio.
A extinção da Banda 31 de Março simboliza uma perda de identidade do município e de seu patrimônio cultural já que esta enquanto movimento cultural participou, contribuiu e constituiu parte significativa do ser ingaense.
Por outro lado podemos entender o desmantelamento da banda como um processo de ressignificação do que é ser ingaense. A banda representa um produto culturalmente rico e participou integralmente dele, (alvorada, o sete de setembro, o aniversário da cidade, as festas folclóricas – São Sebastião, a Festa do Rosário -, o Carnaval, etc.). Se pôs e se impôs como algo insubstituível, não por ser única mas pelo papel que representou dentro desta sociedade, tanto para os músicos como para a comunidade em geral.
Quem é que não se lembra com saudades do romper da alvorada ao som da 31 de Março?
As coisas mudam! No entanto nem sempre pra melhor. Nessa lógica aquilo que representa o passado passa a representar o arcaico, e esse velho é substituído pelo novo, amparado por um discurso de “progresso” que substancialmente destrói os valores as memórias e por conseqüências as tradições e a própria cultura.
O “assassinato” da Banda 31 de Março é uma conseqüência desse progresso sonhado, “delirado”, idealizado e construído em cima da morte cultural do município, que acompanha uma descaracterização tanto estrutural como emocional.
A Banda foi vítima, não só por despertar no povo um sentimento de pertencimento,  de identificação com o passado. Mas principalmente por representar dentro da lógica do discurso “inovador”, um obstáculo ao progresso, as mudanças.
A nova cara do município (Carro de som, da banda Itacoatiara, da Tv Itacoatiara, das festas animada pelo som da prefeitura) maquiada, redesenhada, demonstrando um novo sentido, de senhora turística.
É evidente a necessidade da revitalização da banda, para prosseguir a história da formação musical de Ingá. Que os mais velhos possam deixar a semente musical florescer e perpetuar.
“Salve a Retreta!”.


2 comentários:

  1. Belo trabalho da professora Zilneide. Ingaense de coração. Deixou boas lembranças como educadora (professora no Abel da Silva e gestora, Orientadora do Projeto Logus II, Professora da escola Major). Hoje Socióloga Piauiense.

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  2. Fico muito feliz em saber que dona Zilneide está bem, fui muito bem recebida por ela e muito bem educada no Abel quando ela era diretora de lá. Obrigada Alexandre por essa ótima postagem e por ter escolhido uma pessoa tão maravilhosa para inaugurar a coluna Gente.

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