quinta-feira, 23 de março de 2017

O DOSSIÊ DA PASTA ROSA - Capitulo IV: “MEU PAI ME PERGUNTOU: Meu filho! ...você é o que eu tô pensando?"


Há momentos de nossas vidas que vivenciamos situações que para nós seria preferível se pudéssemos esquecer. No entanto, algumas vezes são esses momentos que nos causam tanto desconforto que possibilitam que haja mudanças boas ou ruins em nossa vida.
Viviane Souza

Isso, foi o que aconteceu com Nal, quando o seu pai, Seu Miltinho percebe que há alguma coisa estranha com o seu filho.

“Eu me lembro que quando completei 13 anos, o meu pai começou a pegar no meu pé. Eu acho que ele passou a perceber as coisas mais claras, porque lá em casa iam muitas garotinhas a minha procura e eu não dava a mínima. Me escondia, corria!
Até que um dia ele chegou para mim, e teve uma conversa. Sentou lá na calçada de casa, me chamou e perguntou: ‘Meu filho fala para mim, você é o que eu tô pensando? ’
Meu pai era machista, mais ele me amava. Eu era o único filho que ele conversava. Pelo seu temperamento, os meus irmãos tinham medo dele. Dudu morria de medo! Eu não. Se ele reclamava comigo por algo que eu não tinha feito, eu encarava ele. Nós sempre batíamos de frente. Por isso ele me admirava.
Como eu não respondi a sua pergunta de imediato, ele perguntou novamente: ‘Meu filho! ‘Você é realmente o que eu penso que você é? ’
Ele não teve coragem de ser direto, e eu não perguntei o que ele achava que eu fosse, porem sabia do que se tratava. Eu respondi apenas que não. E perguntei para ele: o que é que o senhor está pensando que eu sou?  Ele permaneceu calado. Eu desconversei e tratei de sai dali o mais rápido possível.
Depois dessa conversa eu fiquei com muito medo porque ele sempre falava para mim, não só para mim, mais para todos os meus irmãos, que no dia que tivesse um filho viado ou uma filha rapariga, esquecia que era seu filho e botava de casa para fora.
A esquerda: Seu miltinho e Albinha. Ao centro Zezinha. Do lado direito: Dona Toinha e Nal (Viviane)

Então a partir daquele momento eu comecei a pensar: meu pai já está desconfiado ao meu respeito. Ele deve está percebendo.
Ele foi a única pessoa da família, fora as pessoas da rua que já me chamavam de viado, que me chamou a uma conversa.
Quando eu andava na rua, ficava durinha para ninguém perceber. Às vezes, o medo era tanto que alguém percebesse que eu me tremia todinha.
Depois da conversa que meu pai teve comigo ficou um clima muito chato. Eu evitava falar, até caminhar dentro de casa eu tinha medo.
Eu me lembro, que algum tempo antes desta conversa que ele teve comigo, na cidade de Ingá estava para acontecer um concurso de lambada. E ele me dava a maior força: ’Vai meu filho!’ Ele adorava me ver dançar! Mais na frente dele eu tinha vergonha. No entanto, quando eu começava a dançar, me soltava e rebolava mais do a Tarciana, que era o meu par. O povo falava: Porra! O cara requebra mais do que a bailarina! Eu botava para quebrar e não dava confiança ao que falavam ao meu respeito.
Apesar de tudo o que eu já tinha vivido, continuava muito reprimido. Com vergonha das pessoas, com medo da família. Eu achava ridículo os adolescentes da minha época que assumiam a condição de homossexual, e me culpava por isso. Chorava muito.
Nal ( Viviane) e  seus irmãos:Abinha e Dudu

Meu Deus, o que é que eu sou? O que é que eu vou ser? Eu falava pra Deus: Porque é que nasci homem e não mulher? Eu tinha preconceito. Eu não me assumia. Eu não me aceitava. A minha preocupação era de como eu ia ser visto no Ingá? Como as pessoas iriam me tratar?
Lembro que nessa época, eu não podia ver um homem bonito, sem camisa que já me despertava desejo. E, eu ia para casa conversar com Deus: Meu Deus o que eu Estou fazendo? Porque estou pensando nisso? Eu nunca tive olhos pra mulheres. Nuas ou de qualquer jeito, em mim não despertava desejos. Nas meninas eu não tinha desejo, só nos meninos.
Eu não podia ver a axila de homem, que me dava uma coisa por dentro! ...
Nas Quadrilhas juninas que agente dançava, eu ficava com tesão nos meninos. Dançavas com as meninas mais era apaixonado por um dos meninos da quadrilha.
Quando estava entre a turma, eu sempre me fechava o máximo que podia para não dar na pinta. Mas eu sabia dentro de mim que todo mundo sabia o que eu era.
Eu pulava muito elástico com Tarsiana, Ninha, Neta. Tinha elástico debaixo do meu colchão para meu pai não encontrar.
Nal (Vivine) e Ninha, componentes da Quadrilha Flor do Agreste

Quando estava brincando de elástico com as meninas, e meu pai se aproximava. Eu disfarçava.
Brincava muito com Mô, uma outra amiga. Uma vez meu pai me flagrou, eu “tendo um filho”. Foi! imitando uma mulher grávida. Eu tinha 14 anos. Na brincadeira, eu ficava grávida (apesar de ser menino e a minha amiga menina, quem ficou grávida fui eu) e Mô tinha que fazer o parto. Assim ocorreu: nós pegamos uma boneca, que coloquei sob a camisa, me deitei no chão, abri as pernas e comecei a gritar! Empurrava o bebê para fora; fazia respiração cachorrinho. Até que a criança nasceu! E, isso, eu sem perceber. Meu pai, da porta assistira tudo. Depois desse dia. Eu acredito que ele tenha tido certeza de todas as suas desconfianças ao meu respeito, e a respeito de minha sexualidade.
Na minha representação de mulher parideira, que eu acho que representei tão bem! Quando o “bebe nasceu “que olhei e vi que o meu pai estava me observando! Aí eu pensei: a minha vida acabou! Depois deste dia nunca mais tive coragem de conversar com ele. De estabelecer um diálogo. Ele guardou aquilo, e que eu saiba, nunca comentou nem com a minha mãe. Por outro lado, eu me fiz de indiferente e tratei de esquecer o ocorrido.
Meu pai morreu no dia 23. No dia do meu aniversário de 15 anos. E na época que ele morreu se tornou tudo mais fácil para mim. Eu me sentia livre porque a única pessoa que me punha medo e que eu tinha de dar satisfação era ele, e agora estava morto.
Com a minha mãe, eu nunca me preocupei muito. Ela vivia muito fora de casa devido a sua profissão (professora). Trabalhava de manhã, a tarde e a noite, e por isso eu acreditava que poderia ir levando “a banho Maria”. Meu pai era muito moralista, mas eu acredito que se ele estivesse vivo, hoje, talvez me aceitasse do jeito que sou, não sei! Eu acho que ele me aceitaria, mais eu iria sofrer muito até que isso acontecesse. Quando painho morreu, eu pensei: agora faleceu o chefe da família, então eu não tenho que dar satisfação da minha vida a mais ninguém. Claro que tinha Mainha, mas a ela eu não me sentia obrigado a dar satisfação. Uma conversa resolveria tudo, e depois disto ela iria entender e relevar
Depois da morte do meu pai começaram a surgir as aventuras, os encontros, as amizades.  Tomei coragem de me encontrar com Xuxu, “D”, eu falava muito assim.., porque ele dava muito em cima de mim. Não só ele, mais também P. me assediava, e eu nunca me envolvi com nem um deles por medo. Na época eu era também muito assediada por mulheres. Por muitas mulheres. E, eu? Simplesmente fugia delas como o diabo foge da cruz. Até então, eu não tinha tido nada forte, significativo com nenhum homem, só paqueras, casinhos levianos.
Portanto, foi a partir da morte do meu pai, que eu comecei a me sentir mais livre, sem tabu nenhum. Passei a não mais me sentir policiada, porque era o meu pai a chave de toda a minha retração. Passei a andar pelos lugares que eu sempre tinha vontade, mais por medo nunca ia; descobri o que significava a palavra diversão e a partir daí passei a me envolver mais em situações que antes eu tinha medo. As minhas calças jeans? Apertei todas e passei a liberar mais a mulher presa em mim.
Quando fui estudar em Campina Grande, desenvolvi uma amizade com uma lésbica que me levava para Boates Gay local que eu me sentia à vontade. Tive meus relacionamentos aqui em Ingá, mais sempre as sete chaves por que eu morria de medo da sociedade Ingaense; das pessoas de Ingá; das línguas de Ingá...”


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