segunda-feira, 27 de março de 2017

A HISTORIADORA JOSELMA NASCIMENTO E O GLAMOUR DAS FESTAS DO CLUBE UNIÃO CULTURAL INGAENSE

Em 1996, ano em que ingressei na Universidade Federal da Paraíba como acadêmico no curso de História, ela estava concluindo o curso. Pessoa humana de um caráter excepcional, amigável e sempre disposta a ajudar o próximo.
Na época, muito matuto e ainda procurando me encontrar dentro do curso, lembro-me que ela por uma ou duas vezes me ajudou a montar o cronograma de disciplinas que eu precisaria cursar no período (s).


Lembro-me ainda que foi ela que me indicou para lecionar história (minhas primeiras turmas) na escola Luiz Gonzaga Burity no ano de 2000.
Sempre tive e mantenho o maior respeito e carinho por ela!
Grande mãe. Esposa zelosa e honrada. Excelente professora e historiadora, e... UMA DAS TRES ALMAS MAIS ILUMINADAS que conheci nesse mundo (acho que já falei isso pra ela rsrsr)
Por esses e diversos outros motivos que só a engrandece, a coluna GENTE do Blog O INGAENSE, vem homenagear esta semana a Historiadora Ingaense, JOSELMA NASCIMENTO, por suas contribuições na escrita e na pesquisa da história do nosso município.
A você! Minha amiga, minha irmã, minha colega... NOSSO MUITO OBRIGADO!

Segue abaixo um resumo da pesquisa da professora (Especialista em História pela UEPB) Joselma Nascimento, onde ela resgata a história do Clube “A União Cultural Ingaense”.
BOA LEITURA!

VELHOS TEMPOS, VELHOS DIAS: ERA DE GLAMOUR NO CLUBE UNIÃO CULTURAL INGAENSE
Joselma Nascimento



1. Um debate sobre a História Cultural

O estudo da memória social é um dos meios fundamentais de abordar os problemas do tempo e da história, relativamente aos quais a memória está ora em retraimento, ora em transbordamento. (LÊ GOFF, 1996, p.426)

Uma das temáticas mais debatidas e trabalhadas na “Nova História” ou “História Cultural” é a memória que antes era encarada como uma fonte de pesquisa não confiável, inválida, sem nenhuma credibilidade.
Isso porque a historiografia mundial e inclusive a brasileira até o final dos anos de 1980 era até então denominada por uma postura marxista de entendimento da história. Em princípio podemos dizer que forma duas as posições interpretativas da história criticadas: o marxismo e a corrente de Annales, sendo que a partir dessas duas correntes, que veio o impulso de renovação, resultando na abertura desta nova corrente historiográfica a que chamamos de História Cultural ou mesmo de nova História Cultural.
A partir dessa nova perspectiva de pesquisa histórica, o modo de estudar e analisar a História foi sendo revista e reelaborada, pois a História era o resultado de uma interrogação, feita pelo historiador, de uma escolha e de uma organização de dados, intrigas, mentalidades e representações feitas pelo historiador a partir de suas análises.
A preservação do patrimônio é vista hoje, como uma questão de cidadania e, como tal, interessa a todos por se construir em direito fundamental do cidadão e o esteio para a construção da identidade cultural, isso porque em grande parte hoje, preservar um bem cultural deve-se não só pelo seu valor estético, arquitetônico ou histórico, ele é preservado se tem significados para a comunidade possibilitando melhoria da qualidade de vida e de seus moradores e contribui para construção de sua identidade cultural e o exercício da cidadania.
Consequentemente, com a preservação do patrimônio cultural é que a sociedade ou uma nação vai construindo e solidificando a sua identidade cultural, para as gerações futuras continuarem com bases históricas e culturais enraizadas.
Portanto, foi a partir dessas novas visões historiográficas e a nossa preocupação em resgatar um pouco da história social e suas representações populares juntamente com o uso da memória coletiva e a preservação da mesma que tivemos o desejo de trabalhar a representação popular sobre o Clube União Cultural da cidade do Ingá – PB.

2. – Um Retrato do Clube

Foi justamente no dia 22 de janeiro de 1949, que o sonho da sociedade ingaense estava começando a se tornar realidade. O Clube União Cultural Ingaense estava se tornando uma associação civil com duração indeterminada, destinada a proporcionar a seus membros toda a diversão como conferências literárias, jogos de salão, partidas esportivas e toda espécie de divertimento que tinha como base a boa moral.
O clube era todo estruturado por membros da elite social ingaense cuja diretoria era composta por nove membros eleitos por dois anos. Seus membros que deveriam ter uma conduta moral exemplar. O número de sócios ilimitado nas seguintes categorias: proprietários de terras; funcionários efetivos e comerciantes.
De acordo com o estatuto do Registro de Títulos e Documentos no capítulo II (dos sócios e suas classes) no art. 6º e Art 9º:

Os proprietários são os que subscrevem e integralizarem de duas até quatro cotas no valor de C$ 500,00 cada um correspondentes a um título; o sócio efetivo é o que pagava uma jóia de C$ 50,00 e a mensalidade de C$ 10,00, não teria direito a voto e sujeito as penalidades e exigências estabelecida neste Estatuto mas tem o direito ao ingresso franco na sede da sociedade e a tomar parte em todas as festividades promovidas pela mesma como também nas competições desportivas.
Os sócios comerciários (comerciantes) aqueles que sendo do quadro social, prestarem a sociedade serviços preponderantes a juízo da Assembléia Geral (Cap. II, pp.94-95).

A diretoria do clube era composta de presidente, vice-presidente, 1º e 2º secretário, diretor social, tesoureiros, vice-tesoureiro, orador e vice-orador. Essa diretoria teria que se reunir até o dia cinco (05) de cada mês anterior e tomar decisões de interesse do Clube.
O presidente do Clube tinha toda competência como: presidir sessões da Diretoria e superintender os serviços internos e organizar outras decisões, assinar as atas de todas as reuniões.
A partir de toda essa estrutura, existia também uma comissão de contas que era eleita juntamente com a Diretoria e era composta por três membros para dar o parecer sobre os balanços e estados das contas a serem apresentadas, anualmente em assembléia geral.
Era nessas assembléias gerais que os sócios proprietários, efetivos e comerciantes tinham o poder supremo de resolver todos os atos ou casos em última instância, sendo constituídas pelos sócios em pleno gozo de seus direitos.
Os sócios que, por algum motivo, infringissem os artigos do Estatuto e qualquer regulamento e quaisquer deliberações da Diretoria seriam punidos com advertência, suspensão ou eliminação de sócio.

Nossa! Naquela época só poderia entrar no clube maiores de 14 anos e junto com os pais para participarem dos bailes que o clube oferecia.
(Depoimento de uma moradora e filha de um antigo sócio – proprietário – Dona Miriam)

Ou seja, podemos perceber que os sócios proprietários tinha que seguir a várias regras que a Diretoria do Clube oferecia e uma delas era só a entrada de adolescentes a partir de 14 anos acompanhados dos pais. Menor de idade não tinha oportunidade a não ser que fosse em matinês de carnaval oferecidas e organizadas pelas esposas dos sócios proprietários que realizavam nos turnos da tarde.
No art. 80 do estatuto p. 97 temos:

É absolutamente proibida a entrada dos filhos. Menores dos sócios de qualquer categoria nos salões da sociedade a não ser nas festividades que lhes forem oferecidas sempre que possível a Diretoria do Departamento Feminino organizará festivais infantis destinados aos filhos menores dos associados, dentro das normas estabelecidas pelo código de menores.

Os sócios tinham vários deveres e um deles era zelar pelo estabelecimento, prédio, o Estatuto, apresentação de recibos de quitações e acatarem as decisões do Presidente realizada em Assembléia.
O primeiro momento do funcionamento do Clube até a sua inauguração oficial passou por uma gestão de Diretoria Provisória, mas que teve seu final no dia 05/03/1950 cujo momento foi empossada imediatamente a diretoria efetiva e teria seu encerramento em 31/12/1951.
A comissão dessa diretoria foi formada por:

Rômulo Romero Rangel
Presidente Interino – Severino Alves da Rocha
Relator: Elvino T. do Rego
Membro: Raminho Romero Rangel
Presidente: Severino Alves da Rocha
Vice-Presidente: Euclides Cabral de Melo
1º Secretário: Francisco Monteiro Dantas
2º Secretário: Elvim T. do Rego
Diretor Social: Manoel Henrique Filho
Tesoureiro: José Rodrigues da Silva
Vice – Tesoureiro: Euclides Garcia
Orador: Nelson Figueiredo
Vice-Orador: Gesson Alves Peixoto
                        Manoel Ferreira Leal

Demais Sócios ilustres:

José Dias Pereira, Tibúrcio Valeriano de Oliveira, Bernardino de Souza Monteiro,  Manoel Travassos da Luz, Silvio Caxias, João Alves Trigueiro. Olinto de Manoel Farias, José Sinval da Silva, José Claudino da Silva, Severina Lima, Augusto Higino de Melo, Luiz José de Santos, Heráclito Rodrigues de Ataíde, José Rezende Pereira, Francisco Ernesto de Andrade, Gabriel Tavares Bezerra, Austênio da Silva Filho, João Gaulberto Gonçalves, Ascendius Batista da Luz, Severino Dias Correia, Lucenildo José de Arruda e Euclides Magno Bacalhau.
Todos os sócios citados faziam parte de uma elite agrária municipal muito respeitada por todos e, por isso, conseguiram erguer e fazer funcionar um dos clubes que mais se destacou em organização, festas, torneios e apresentações de bandas já vistos nesta região.
Realizamos esta pesquisa na cidade de Ingá – PB, buscando os moradores ingaenses que vivenciaram um pouco o funcionamento e a falência do Clube União Cultural Ingaense como um Patrimônio Cultural do município.
Foi com a oralidade que visamos buscar a significação em cada um as lembranças de suas próprias vidas, de episódios vividos e marcantes no clube, como fica bem claro nessas flas:

“As lembranças são diversas, mas com o tempo tudo passa e dificilmente, o que passou pode ser vivido. Tempos atrás tudo era diferente. O romantismo completava tudo, até mesmo nas construções havia um toque de romantismo, dando um certo encanto aquela bela época.” (Moradora e escritora Maria de Jesus Pinto).

“Era o prédio mais bonito que existia e as festas mais organizadas lá. Eu freqüentava acompanhada dos meus pais, pois lá só entrava os sócios proprietários e seus filhos e quando um amigo vinha de “fora” só entrava acompanhado com o sócio proprietário.” (Professora Miriam).

“Todas as festas marcaram não só a mim, mas toda a sociedade ingaense, mas o destaque é para o lançamento da primeira Festa das Rosas no ano de 1969.” (Professor Ivanildo).

A partir desse trabalho de pesquisa com base na oralidade, podemos examinar em nossas conversas um ar de saudosista mas também de decepções com o poder público de não mais ter o funcionamento do Clube como era antes porque agora está na guarda da Prefeitura Municipal, como fica bem claro nessas falas:
“A utilização do Clube hoje é péssima, isto é, se é que está sendo utilizado, transformou-se em central de velório (Professor Ivanildo)

“Hoje infelizmente as barracas que cercam a frente do clube matou a sua beleza, da mesma maneira que está sendo a sua utilização.” (Miriam da Luz).

Sabemos que este estudo não tem a pretensão de retratar a “verdadeira” história social do município e da fundação do Clube União Cultural Ingaense, mas tenta contribuir para a formação de nova consciência de preservação dos nossos bens culturais, tentando promover um debate sobre várias questões acerca de patrimônio e memória, que está aberto a críticas e novas propostas de análises e pesquisas.



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